Seu João, na Vila Sônia

Há três anos, passeando durante o dia com o meu filho pelas ruas da Vila Sônia, conhecemos um senhor negro, franzino, uma simpatia: seu João. O vigilante de uma rua próxima à nossa casa, passava a noite toda zelando pelo sono e pela segurança dos moradores. Percebi que era querido e respeitado pelos vizinhos. Mas só poderia ser. Ruas arborizadas, casas grandes e vários carros nas garagens, um espaço agradável para se viver… e também para os nada ilustres visitantes das madrugadas paulistanas.

Eu não sei como a nossa conversa começou, mas ele nos contou que é de Salvador, que vive há muitas décadas em São Paulo, que é militar aposentado e fez questão de mostrar a carteirinha. Continua trabalhando como vigia daquelas casas numa das ruas tranquilas do bairro.

O seu João nos contou que voltaria para Salvador dentro de pouco tempo, mas que São Paulo é uma cidade abençoada, que o havia acolhido num momento de grande dificuldade e que nunca havia passado falta de coisa alguma.

Eu não me esqueci mais dele.

Nesse ano, lá estávamos de novo: nós e o seu João. Fui conversar com ele, apertamo-nos as mãos. Continuava o mesmo, franzino, sem todos os dentes, com a farda meio amassada e o tecido já bastante puído. No dia 2 de janeiro, de noite, passei com o meu marido, de carro, pela rua em que ele atendia. Ele só gritou: "feliz ano novo". Na verdade, nem sabia que era eu que passava por ali naquela hora, mas gritou, com muito sorriso e suavidade na voz. Fosse para quem fosse, ele desejava coisas boas, um ano em paz.

Numa das noites seguintes, eu voltava para casa com uma sacolinha com um bom tanto de pernil cortado em cubos para uma janta mais gostosa. De novo nos encontramos e ele comentou que tinha ido comprar um refrigerante no mercadinho da esquina, mas o mesmo estava fechado. Ofereci para ele: eu buscaria um pouco de guaraná em casa para ele, com satisfação. A noite de verão prometia muito suor e incômodo, mas ele agradeceu.

Na noite seguinte eu perguntei: "conseguiu o refrigerante hoje, seu João?". Ele, sorridente, disse que sim.

Antes de eu voltar para Florianópolis fiz questão de me despedir dele. De novo, apertamo-nos as mãos e ele me desejou boa sorte, que Deus me acompanhasse, com um sorriso bom e macio. Disse a ele que no final do ano voltaria e que conversaríamos de novo.

Caminhar com calma pelas ruas mais tranquilas de São Paulo nos oferece múltiplas oportunidades felizes, como essa, por exemplo. A possibilidade de parar um pouco na rua, perceber que não existe, nesses casos, nenhum interesse a não ser o da boa e rápida conversa nos abre uma imensa e positiva visão dos moradores da cidade. Há quem goste muito de falar de si, mesmo com uma estranha. Aliás, uma necessidade que deve, de alguma forma, ser atendida até para se manter melhor durante o dia de trabalho. E senti satisfação de ambas as partes.

Quando eu vivia em São Paulo, eu via o cotidiano de uma forma extremamente cruel. Eu era muito jovem e pressentia o perigo em tudo, como se todos fossem inimigos prontos para o ataque a qualquer desatenção. Claro que todas as cidades oferecem os grandes riscos, mas é possível e infinitamente bom o desenvolvimento da capacidade de ser uma eterna pesquisadora da vida, ter a sensibilidade de captar esperanças, sonhos embutidos em olhares diversos e não ter a mínima vergonha de conversar sobre esses sonhos e esperanças com pessoas até então desconhecidas.

Assim fica mais realista e de fácil compreensão a música tão brilhantemente cantada por Gonzaquinha anos atrás: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a alegria de ser um eterno aprendiz. Dizer que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita”.

e-mail do autor: [email protected]