Rua Gaspar Soares II

A neblina era densa, mal divisava os contornos da rua e da esquina que dava para a Rua Leôncio. E o frio? Forte, cortante e nós de camisa fina debaixo da "japona" azul marinho tremendo, tremendo. Mas lá íamos, para Escola Máximo de Moura Santos pela rua de terra margeando o Parque Domingos Luiz, quase sem ver a escola envolta na neblina.<br><br>Era o último dia de aula e do terceiro ano primário. No pátio a correria dos alunos e a grande expectativa, pois nesse dia iríamos saber se tínhamos passado de ano.<br><br>As brincadeiras de sempre, os amigos, as tímidas meninas daquele tempo que nos olhavam furtivamente e se espalhavam em grupos pelos cantos do grande pátio.<br><br>Como último dia de aula, até engraxei meus sapatos já um tanto gasto da vulcabras, mas que me fazia sentir mais adequado para o grande momento.<br><br>Apesar do frio o dia foi clareando e um sol acanhado foi rompendo a neblina dissipando-a e aquecendo e evaporando o orvalho dos matos que cresciam no entorno da escola e já um céu azul ia rompendo mais uma vez em nossa infância, em nossa esperança simples e sem maldades.<br><br>Os meninos daquele tempo éramos humildes em nossos anseios e necessidades. Não existiam os Nikes, Adidas nem celulares e computadores. A televisão ainda era preto e branco e em tudo uma simplicidade hoje esquecida, que nos bastava.<br><br>Em meio a toda aquela algazarra foram surgindo as nossas professoras atraindo a massa de alunos de suas classes. Elas iriam, dizer quem tinha passado para o quarto ano e foi grande nossa expectativa.<br><br>Na direção de nosso grupo, nossa Professora Dona Eclair com seu perfil de águia foi dizendo ao acaso para seus alunos que se aproximavam: Você passou! Você passou! Você não passou!<br><br>Fui me aproximando timidamente, quando ela me olhou meio assim de lado e num quase sorriso olhou dentro de meus olhos ávidos e disse:<br><br>Você não passou!<br><br>De repente o tempo parou. Vi meu pai na sala lendo seu jornal, esperando minha volta. Minha mãe fazendo o almoço sempre com aquele ar simples e bom, também me esperando.<br><br>A professora má, nem se deu ao trabalho de explicar porque, deu as costas e foi comunicando aos outros alunos.<br><br>Fui saindo da escola pela rua de terra, pisando nas pequenas poças d´água e barro com meu velho sapato engraxado. Fui chutando a ilusão perdida, a esperança vazia e divisando o futuro incerto.<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]<br>