Seria ele um índio?

O sol já derramava toda sua luminosidade naquela região de São Paulo. Alto do Sumaré. Minutos antes do caminhão da mudança partir rumo ao, até então, desconhecido Alto da Lapa, o Bonifácio, proprietário daquelas tranqueiras colocadas na boléia do caminhão, gritava para o motorista:<br>- Vamos logo com essa joça, porque tenho pressa! E ainda preciso arrumar a nova casa.<br>O homem deu de ombros, pôs um cigarro de palha atrás da orelha e, num gesto indelicado, disse:<br>- Já estamos indo, saco! Não pode esperar?<br>Ao lado dele, a mulher do Bonifácio parecia impaciente, quase aflita, com aquela mudança.<br><br>Finalmente o caminhão, um Ford velho, com os quatro pneus carecas, começa a rumar para o caminho indicado.<br>- Entre ali, naquela pinguela barrenta da Cayová e suba a Rua Heitor Penteado. Depois, lá no alto, onde termina o asfalto, você vira totalmente para a esquerda e desça o barranco barrento, escorregadio da Cerro Corá até o fim. Entre a esquerda, na bifurcação da Rua Pio XI até a confluência da Rua dos Jesuítas – gritava o Bonifácio para o motorista do caminhão.<br><br>A paisagem era deveras luxuriante. Mato da esquerda, mato da direita. Parecia que estavam entrando numa floresta sem fim. Minutos antes de partirem, o Bonifácio arrancara de trás da porta da antiga casa, um calendário mostrando o dia e o mês daquela verdadeira conquista da sua vida nova.<br><br>Como seria prazeroso descer toda a ladeira de terra lamacenta da Cerro Corá e cair na parte plana do terreno, se a rua fosse toda asfaltada. Porém, não era. Ao longe, muito além daquele verde exuberante selvagem, podia-se avistar aquela pequena cobra d'água parada no meio, serpenteando ambas as margens do Rio Pinheiros, expandido cores brilhantes sobre placas luminosas nas lâminas espelhadas que o sol fazia assentar nas beiradas das lagoas que a chuva do dia anterior se fizera formarem.<br><br>O sol agora batia no para-brisa do caminhão, dificultando a visão do motorista e do passageiro. Que coisa interessante. Parecia que o sol daquela época era diferente do de hoje. Seus raios eram amenos, menos agressivos, pois ainda conservavam a camada de ozônio e havia, sobretudo, uma brisa matinal com cheiro de mato que a chuva do dia anterior deixara no ar. Estavam no início de fevereiro de 1950.<br><br>O Carnaval já estava se aproximando. O Bonifácio se remexeu no assento do caminhão, incomodado com a luminosidade do dia e com as molas expostas no banco rasgado, espetando seus fundilhos na cabine do caminhão. Rogou várias pragas, amaldiçoou o mundo. Apesar de tudo, havia na sua fisionomia um brilho de felicidades e de satisfação. Afinal das contas, aquela casa, a primeira de sua vida, comprada com muito sacrifício, trazia-lhe orgulho. Era a primeira vez na vida, após quarenta anos de trabalho, que ele deixaria de pagar aluguel. Casa própria. Isto sim é que era uma conquista do seu ego.<br><br>Podia até dizer pra parentela invejosa que ele tinha conseguido comprar sua casa própria. Iria se apertar, é verdade, para pagar os cinco anos restantes de prestações, mas fazia sentido aquele esforço que fizera com o proprietário construtor, sem nenhuma interferência de bancos ou financeiras. O capital a ser pago era módico, cabia perfeitamente no seu orçamento e os juros da amortização feitos pela tabela praice eram de seis por cento ao ano. Era realmente um bom negócio.<br><br>Porém, alguém lhe tinha dito que ali era o fim do mundo. Que Judas tinha perdido lá as meias e as botas juntas. Não importava. Estava radiante de felicidades. Finalmente, depois de chacoalhar de um lado para o outro e o motorista do caminhão praguejar sem cessar, chegaram à nova casa. O sobradinho recém construído cheirava ainda à tinta fresca e a cimento novo.<br><br>Os móveis de quarto foram os primeiros a descer. Um armário antigo de três portas de madeira maciça, comprados por volta de 1937 quando do enlace matrimonial do casal; uma cama faixa azul, da marca Bruno Liche com estrado entrelaçado de arame galvanizado em forma de losângulo com molinhas de sustentação nas bordas das laterais. Depois desceram os moveis da cozinha. Uma mesa com tampo de madeira escovada e quatro cadeiras pintadas de branco. Um armarinho com enfeites talhado nas bordas, com detalhes e desenho simétricos, com vidros transparentes frontais e um pequeno espaço para colocar os copos e pratos na prateleira. Na parte inferior, um compartimento com duas portas pequenas, também pintadas de branco, onde guardariam os alimentos.<br><br>Depois desembarcou a sala de jantar. Havia uma mesa de madeira maciça com duas tabuas embutidas no miolo de dentro do tampo, caso fosse necessário aumentá-la. Acompanhando o conjunto, vinham também seis cadeiras antigas forradas de veludo cotelê azul marinho.<br><br>Dona Carmem, a esposa do Bonifácio, assim que chegou, começou a varrer a sala de jantar que ficava na parte de baixo do sobradinho. Estava, ela também, feliz por ter conseguido a sua primeira casa própria.<br><br>Depois de tudo colocado nos seus devidos lugares foram vistoriar as demais dependências. O terreno era regular, com apenas uma ligeiro declive para os lados da frente da casa. O jardim era separado por uma cerca de arame farpado, dividindo ao meio com o jardim do lado vizinho. Tudo ali era feito economicamente para diminuir os custos da construção. Havia também, um poço chorão, porque a água minava lentamente da terra, e demorava um dia inteiro para encher com um metro d'água o fundo atijolado do poço. Uma bomba pistão manual era encaixada no círculo de cimento do tampão com um pistão a ar comprimido, sorvia do fundo do poço a água, muitas vezes terrosa, porém, necessária para o enchimento da caixa d'água.<br><br>Entre a porta da cozinha e o fundo do terreno, havia uma plantação de batata doce que se espalhava pelo chão cobrindo toda a área com sua folhagem verde rasteira. Muitas formigas saúva construíam seus ninhos e faziam suas trilhas por ali. Carregavam no dorso enormes folhas do batatal, maiores do que elas, para dentro do formigueiro. Nos fundos da casa, havia uma cerca de arame farpado, com uma portinhola de pinho, com ripas espaçadas em forma de espeto, que dava passagem para uma viela que encurtava o caminho. Eles entravam por ali. Mesmo assim, o Bonifácio e a esposa estavam felizes.<br><br>E a luz? Não tinha. O último poste estava a cinqüenta metros da casa. O Bonifácio solicitou da Light a ligação da luz. Depois de quinze dias sem energia, o caminhão finalmente apareceu. Havia, no entanto, um empecilho a ser resolvido. O homem da Light afirmava que o poste estava irregular, longe demais da residência, e eles não tinham fio suficiente para alcançar o poste. E, assim, procedendo, iam embora com desfaçatez, sem ligar a luz e sem dar maiores explicações. Obviamente, o Bonifácio não podia desistir. Estava ele novamente na Light, solicitando a ligação da luz. Depois de quinze dias, a tripulação do mesmo caminhão retornava novamente. A mesma conversa de sempre. O poste estava longe da residência e eles não tinham fio suficiente para estender até o ponto da rua. E novamente iam embora sem maiores explicações.<br><br>Mas o Bonifácio estava decidido, não desistiria. Deixou com a esposa dez cruzeiros de caixinha caso eles novamente retornassem. Após quinze dias, apareceram de novo. Dona Carmem já os aguardava com a mesma justificativa de sempre: “Não temos fio suficiente”. Após uma breve conversa e com a nota de dez cruzeiros na mão, imediatamente acharam dois rolos de fio e a vista da propina, no maior cinismo do mundo, ligaram a luz e ainda de presente, deixaram de brinde o restante da sobra dos fios. Finalmente, depois de três meses sem luz, a casa se iluminou. Junto com a luz, o Bonifácio também se iluminou.<br><br>O bairro era novo. Não tinha água encanada e muito menos esgoto. Armazém de secos e molhados, coisa de luxo. Farmácia, nem pensar. Padaria, um sonho. Açougue, uma piada. E o ônibus? Também não tinha. Havia, no entanto, uma capelinha modesta, perdida no meio terroso do morro ladeada de grossos troncos de eucaliptos com suas folhas verdes farfalhantes. Ela pertencia aos padres salesianos da Inspetoria Norte da capital.<br><br>Bonifácio pensava e repensava. “Como viver ali, sem a mínima estrutura urbana possível?”. Quando perguntado pelos colegas de trabalho sobre o novo bairro que surgia, respondia constrangido e desconfiado:<br>- Lá é muito bom de viver.<br>- Afinal, Bonifácio, onde você mora?<br>- No Alto da Lapa – respondeu.<br>- Presumo, então, devido às circunstâncias que envolvem o caso, que você também se tornou um índio.<br>- Índio, eu?! Por quê?! – perguntou.<br>- Ali tudo é mato – responderam – É uma verdadeira selva amazônica no meio da cidade grande.<br>- Portanto, mato lembra floresta, floresta lembra Tarzan, Tarzan lembra selva, selva lembra índio.<br><br>Seria ele um novo índio? Ou seria ele um tacanho de espírito, um estúpido, sem largueza de vistas nas suas ideias? Teria ele sido realmente catequizado pelos padres salesianos? Acabou se convencendo que sim, e que era ancestral da tribo dos Xavantes Botocudos que por ali, no passado, habitaram. Apesar de tudo, ainda estava feliz por ter sido catequizado pelos padres salesianos. Afinal das contas, sendo ele também representante de uma tribo indígena, habitante daquela região, estava feliz porque a taba era sua comunidade e havia realizado um autêntico e antigo pleito: a conquista de sua tão sonhada e desejada oca própria.<br><br>E-mail: [email protected]