Hei, você aí! Por acaso sabes o que significa cerignola? Cerignola. Não? Pois bem… Cerignola é uma bela localidade da Itália (nossa terceira pátria), que fica na região da Puglia, província de Foggia e capital Bari, berço de tantos amigos nossos.<br><br>E por acaso você "conheceu" a Cerignola da zona sul de São Paulo? Não? Então, não conheceu as figuras mais incomparáveis deste mundo.<br><br>A nossa Cerignola era o menor "país" do mundo. Sua área, de fértil terra preta, delimitada pelas ruas Heloísa (hoje Eduardo de Souza Aranha), Avenida Santo Amaro até Rua Fiandeiras, fechava com a Rua da Ponte (hoje Cloromiro Amazonas), uma área aproximada de 2 km quadrados. Aqui não faltavam italianos!<br><br>A grande "vedete" da época, na área, foi a Rua Antonieta (hoje Com. Miguel Calfat), onde proliferavam “grandes e belos” cortiços (os “muquifos” da época).<br><br>O pessoal, na maioria carroceiros (cocheiros), ocupavam-se com vendas nos portões das casas (peixeiros, fruteiros, batateiros, hortifruti, etc.), era "oriundo" da velha Itália; muitos deles da Cerignola de lá.<br><br>Menção especial à família Galichio. Tive ali grandes amigos: os Benachios, que tinham o futebol no sangue; os Daráia, que gostavam de uma encrenca; o mestre Carminú; os Capuanos, gente de boa índole; os Spelacci, comilões inveterados; os D'Alessio, que só cantarolavam; os Rizzutti, que eram representados pelo briguento-mór Ceboleiro, e etc.<br><br>O patriarca (Signore Michelo Galichio), da família Setti-Cabetsa (Bigode, o tranquilo; Barbone, o Camões; Pascoal, o cuecão; Rafael, iôiô; Renato, vista curta; Tição, bibelô de quarto de bruxa; Vadoca, o sujinho; e Coelho papa-légua), no final das tardes, reunia-se com sua corriola no boteco dos turquinhos (Amado e seu irmão), na Rua Antonieta.<br><br>Ao lado deste boteco, existia a "famosa" oficina de mecânica do Zé Zero (Zé Luiz, o mais educadinho da vila), onde eu me servia da sua incomparável perícia profissional. Entretanto, este Zé, que encarnava também a figura de um ilustre e impagável gozador, me convidava para “um casco-verde" no citado boteco. Ao entrarmos, o Zé já atacava uma saudação "ofensiva" aos presentes e, após alguns instantes, segredava na "orelha" do velho Galichio:<br>- Signore Galichio, quer ouvir uma bela canzoneta italiana? Aquele ali é o meu amigo Marujo, é do Scala de Miló!<br>E o velho respondia:<br>- Si, questo maledetto é mio conosciuto, já me a fato piangere moltas giornatas, ma va bene, quero ouvir, Mama!<br><br>A cantoria começava, rolava até a noite e o velho Galichio, já meio alegre, se esborrachava em prantos. E o tal de Zé saia satisfeito por ter gozado todo "mundo".<br><br>Este é o primeiro ato da novela "vechia Cerignola".<br><br>E-mail: [email protected]