Será só isso?

Tempos atrás, caminhava pela Rua Direita juntamente com minha amiga Libera – íamos ao Teatro ver "Besame Mucho", do Mário Prata – quando assim, do nada, ela fez um comentário: "nossa, como o homem evoluiu, não é mesmo"
Bom, seguimos andando, Praça Clóvis, Chá, Teatro municipal, 24 de maio, República fui olhando em torno, os homens sanduíches, com suas placas de "compro ouro" (um acinte à humanidade, aqueles senhores velhinhos, com olhinhos famintos, de sol a sol expostos ao tempo, às intempéries), os distribuidores de panfletos com propagandas enganosas de empregos que prometem, prometem e não cumprem, os vendedores de calças jeans, esgoelando, esgoelando sem parar. Evoluiu?
Não, a humanidade sim, esta evoluiu. A raça humana com um todo, evoluiu o homem enquanto indivíduo, não. Este continua no mesmo estágio do início dos tempos, claro que com algumas melhorias, mas poucas.
O homem muda muito pouco. Mudam os cenários, os interesses, as coisas que o cercam, os objetos que manipula. Redireciona-se o foco, mas na essência, somos sempre os mesmos em eterna sucessão. Toda a evolução da medicina em séculos e séculos não adicionou mais que alguns pares de anos à expectativa de vida ao homem moderno em comparação com os homens das cavernas.
Diante de uma situação de perigo, reagimos da mesma forma que reagiria um troglodita.
Nas grandes organizações de hoje, seus diretores agem exatamente como os faraós, que após a conclusão de uma pirâmide, quando os executores imaginavam que ficariam bem na fita com o chefe, mandavam furar os olhos e cortar as línguas destes executantes para que eles literalmente "não vissem mais o caminho e não dessem com a língua nos dentes". Atualmente, não se praticam mais estes extremos, mas a demissão após a conclusão de grandes projetos costuma ser coisa certa. O chefe e só ele deve conhecer o caminho das pedras, portanto, "corta-se não as línguas, mas os periféricos".
A realidade é que o homem moderno chora as mesmas lágrimas de seus antepassados, sofre as mesmas dores, sonha os mesmos sonhos, morre a mesma morte e espera. A esperança os une e humaniza, pois que nada mais podem fazer. Apenas esperar
E, deixando a filosofia de lado, chegamos ao Teatro. Creio que a peça foi uma das mais interessantes que já vi. Após uma rodada de cerveja e conversas amenas no bar redondo, a vida voltou ao eixo. Girando.