O fim e o começo

Certas coisas não terminam onde deveriam, outras começam quando não deveriam e ainda existem aquelas que terminam no ponto exato que deveriam terminar. São as que concluem seu ciclo e, por isso, não nos deixam com aquela sensação de que está faltando um pedaço.
Não gostaria de me ater a pessoas, mas recentemente reli uma obra de Manuel Puig (boquinhas pintadas) e a morte precoce deste autor argentino me deixou com esta sensação.
Bom, de volta ao começo, por exemplo, em "o vermelho e o negro", de Stendhall, há uma frase lapidar que deveria ser o final do romance "Julien se sentia forte e resoluto como o homem que enxergou dentro de sua alma". O autor não quis assim e explicita a morte de Julien no próximo capitulo (XLV), o que é uma pena.
Na moda caipira "Chico Mineiro", já no final, o autor escreveu "acabou-se o som da viola; acabou-se o Chico Mineiro". Perfeito, um final digno, mas o autor prefere explicar melhor e se perde em laços de família, absolutamente desnecessários.
Agora, em São Paulo, nossa querida e pouco cantada São Paulo, pois que há poucas músicas que a ela se referem, poucos livros que a têm como cenário, diversas coisas também se enquadram – de uma forma ou de outra – ao primeiro parágrafo deste texto.
O minhocão, por exemplo, jamais deveria ter sido iniciado e sua implosão já passou da hora de ocorrer. A concha acústica do Pacaembu jamais deveria ter sido destruída (em seu lugar foi construído o terrível tobogã, de uma infelicidade arquitetônica incrível), em boa hora, o complexo do Carandiru foi desativado, bandidos removidos, mas seu número – dos bandidos – não diminuiu, ao contrário, aumentou de forma assustadora. Os investimentos em educação de qualidade, que já deveriam ter sido iniciados séculos atrás, e que sem dúvida reduziria o número de bandidos, claro que aliado a uma política econômica humana, continuam na fila de espera e nos discursos inflamados de candidatos a conduzir nossos destinos.
Mas, deixando essas coisas tristes de lado e voltando à música, aos livros, à cidade de São Paulo que dá certo, tivemos Mário e Osvald de Andrade, tivemos Adoniram Barbosa, tivemos Plínio Marcos, Pato n'água, Geraldo Filme, Belmonte, Raul Cortez, Guarnieri. Temos Inezita Barroso, Rolando Boldrin, as alas de compositores das escolas de samba, enfim, toda essa cultura popular, assim como os cronistas deste site, que mantém aceso o passado, navegam no presente e vislumbram um futuro, o que não é pouco.