Sou brasileira, sem que tenha nascido no Brasil.
Como tantos outros portugueses, meu pai veio em busca de oportunidade, prosperidade, desenvolvimento. Seguido depois por tios, avós, amigos…
Não existia a Comunidade Européia. Existiam as ditaduras de Salazar, de Franco, a estagnação que fez grandes conquistadores se tornarem a lanterna da Europa.
Me sentia indo para o fim do mundo. Índios nas ruas e cobras nos quintais eram as imagens que mais povoavam minha fértil imaginação de criança.
Nunca mais veria o mar?
Viveria no isolamento, ou faria novos amigos?
Fomos morar no Jaçanã. Aquele do Adoniran. E o trem – aquele do Adoniran – era nosso meio de transporte.
Para o trabalho de meu pai, para os passeios da família, para ir ao médico… Menos para a escola.
Ah, a escola! Era pública. A escola era pública, e tinha tudo o que Paulo Freire pregava como modelo de celeiro da educação – aprender, fazer amigos e ser feliz. E ainda éramos cuidados pelo médico… pelo dentista…
Para buscar melhores condições trabalhávamos já aos 14 ou 15 anos e estudávamos à noite. Na escola pública.
Era São Paulo no início da década de 60.
Meu pai, amigo de tantos portugueses comerciantes, era tipógrafo.
"Lê minha filha, lê. Só assim vais crescer e evoluir".
Vamos ao cinema. À tarde. Terno, gravata, o melhor vestido e sapatos de verniz para ir ao Cine Ouro no Centro de São Paulo – agora já de ônibus – e ainda aproveitar para ouvir o piano na entrada e no intervalo.
São Paulo, o meu País, me deu todas as oportunidades. Estudei, trabalhei, criei, amei, tive filhos e agora minha neta.
E aqui continuam chegando outros em busca das mesmas oportunidades.
Agora poucos são europeus. Mas orientais, nossos vizinhos sulamericanos, e muita da nossa gente brasileira.
Esta é São Paulo, o meu País, que me deu, me dá e a todos, oportunidades, felicidade e realizações.
De uma paulista eternamente agradecida.
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