São Paulo, meu amor – Parte 1 – O primeiro encontro

No dia 18 de maio de 1964, forçado a deixar o campo por culpa da política e conjuntura econômica que tangiam os trabalhadores rurais para os grandes centros urbanos, meu pai, meu irmão mais velho (com 18 anos incompletos) e minha irmã (a primogênita e única filha de sua prole de nove), saíram da área rural da pequena Reginópolis, no Centro Oeste paulista, e partiram em direção a São Paulo. O destino era Vila Friburgo, no bairro de Santo Amaro, onde esperavam conseguir se empregar na indústria e conseguir acomodações para os outros sete membros da família que ficaram acomodados em casas de três parentes lá em Reginópolis.

Dos que ficaram com minha Mãe lá em Reginópolis, o mais velho tinha 15 anos incompletos; eu estava com 11 anos e os outros cinco mais jovens com diferença de dois anos entre si.

Não demorou muito e meu pai conseguiu empregar-se como faxineiro na Engesa, que ficava em frente à Caterpillar, onde hoje funciona o SP Market. Minha irmã empregou-se como ajudante na Metalúrgica Prada, empresa que existe até hoje e fica ali pertinho da Estação Santo Amaro do metrô. E meu irmão empregou-se como ajudante de montagem na Burroughs, ali na Rua Amador Bueno.

Em setembro de 1964, meu pai retornou a Reginópolis para nos trazer a São Paulo. Minha mãe preparou frangos recheados para nos alimentar durante a viagem.

A primeira fase da viagem foi feita em um ônibus daqueles com o capô baixo, que nós conhecíamos como jardineira. Essa jardineira saía de Reginópolis às 06h00; seu percurso era feito em uma sinuosa estrada de terra, cortando várias fazendas… Nessas fazendas, sempre havia passageiros para embarcar ou desembarcar; além disso, tinha também aqueles tambores metálicos cheios de leite que eram transportados na jardineira. Em resumo, para vencer os 80 km que separam Reginópolis de Bauru, foram necessárias quatro horas.

Enquanto meu pai cuidava das passagens para nós, minha mãe nos alimentava com parte dos frangos recheados. Era cerca de 11h quando embarcamos no trem da Paulista, dando início à segunda fase de nossa viagem.

Essa viagem foi uma bela novidade para todos, pois jamais havíamos saído de Reginópolis, imagina então viajar de trem! Lembro-me que comemos o que restava de frango nesta fase da viagem.

Estava começando a escurecer quando o trem começou a entrar em São Paulo. Fiquei muito impressionado ao ver casas "penduradas" nas encostas dos morros da periferia de São Paulo, pois a região donde viemos é uma região plana, e nas pequenas cidades não existiam casas construídas dessa forma.

Aproximadamente às 19h, desembarcamos na Estação da Luz e seguimos andando até o Vale do Anhangabaú. Esse primeiro contato com a cidade grande é indescritível. Para nós, aquele festival de luzes que havia na cidade era uma grande novidade, e muitas vezes chegávamos mesmo a tropeçar pelas calçadas, tal era nosso deslumbramento.

Acho que é difícil as pessoas da cidade imaginarem o deslumbramento, o encantamento e emoção misturados com um sentimento de medo que a grande cidade pode causar a quem nunca a vira antes. Imagine, então, o que se passa pela cabeça de um casal acompanhado por uma "escadinha" de sete filhos, oriundos da zona rural de uma cidade onde não havia nem mesmo sobrado, e de repente se vê andando pela Avenida Rio Branco, vendo aquele show de luzes e prédios com altura por nós nunca imaginado!

Depois de cerca de 30 minutos de sustos e tropeções, chegamos ao Vale do Anhangabaú, onde pegamos um ônibus da extinta Viação Rio Bonito, com destino à casa de minha avó que morava na Rua Basiléia, pertinho da "Antena Tupi", ali na Vila Friburgo, que fazia parte de Santo Amaro naquela época.

Hoje nossa família está muito bem, com mais de 60 pessoas. Muito devemos à cidade de São Paulo e a seu povo hospitaleiro e amigo. Muitos sucessos foram conquistados por aqui, mas isso é assunto para outras histórias.

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