São Paulo antigo

Tudo era tão certinho. As coisas jamais sairiam dos eixos, pensávamos então. Sempre seremos nós contra eles e eles nos respeitarão, porque senão o fizerem já sabem o que lhes acontecerá!

Era assim. Um tempo duro, mas que parecia ser suave, ou antes, era suave pra nós; nós que os mantínhamos a eles, aos outros, sob rígido controle, disciplinadores que éramos.

Mas o tempo foi! Na rolagem do tempo, tudo se igualou. Nos tornamos frágeis ou então foram eles que se robusteceram, de qualquer forma, houve o nivelamento, o tão temido nivelamento. Não, isso não se deu por acaso; na verdade foi anunciado de todas as formas possíveis, mas não prestamos atenção, preocupados que estávamos com nossos problemas menores.

E assim, hoje, a sujeira tomou conta de tudo. Os muros foram pichados. As árvores estão cinzas. Os rios estão esgotos. Os cães estão nas ruas. E nós, que em outros tempos fazíamos o footing nas praças e alamedas, hoje nos sentamos frente à rede de televisão e torcemos pra que volte um mundo que já morreu. Folheamos distraidamente Baudelaire e só então descobrimos que "da mesma forma que na essência das ideias profundas, há neste vinho uma embriagadora amargura".

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