Tatuapé, década de 60. Eu menino ali nascido em 1952, correndo descalço na rua ainda sem asfalto, brincando na Lagoa do Salada ao lado do campo de várzea de mesmo nome. Nos campos de várzea do Textilia e do Belém, onde assistia aos jogos de domingo pela manhã. Além de futebol, as brigas entre jogadores e torcidas que chegavam a caminhões abertos e nós mesmos fugíamos sem olhar para trás.
Lagoa, ainda resquício do tempo do Rio Tietê cheio de curvas, onde capturava meus peixinhos coloridos e alguma cobras d'água para fazer cintos e desfilar orgulhoso de minha façanha.
Manhãs de outono cheias de orvalho; lembro-me com saudades das pererecas coloridas que amanheciam em meu jardim.
Tatuapé da Avenida Celso Garcia, Igreja do Cristo Rei e Escola Estadual Erasmo Braga. Do mercadinho da Tuiuti e da feira da Rua Felipe Camarão onde acompanhava minha mãe todas as terças-feiras.
Tatuapé do charco que ia da Rua Ulisses Cruz até a avenida de paralelepípedos onde hoje fica a Marginal. Local onde afundei até o pescoço e quase lá fiquei se não fossem dois amigos que ouviram meus gritos de desespero.
Saudade da carroça do lixeiro puxada a burros, que no fim das tardes corriam em direção ao lixão para descarga, e a criançada parava o jogo de bola e "chocava" a carroça até o final da Rua Iguaruçu; os chicotes arremessados para trás como forma de colocar medo, mas nunca como forma de castigo…
Interior em plena capital, rural dentro do urbano. Liberdade, espaço para correr, rua para brincar e brigar. Mato onde caçar passarinhos, rãs e preás. Medo. Medo dos meninos que fugiam do Juizado de Menores e vinham por nossa rua. Escondíamos-nos daqueles mal falados moleques.
Largo do Maranhão, onde passava alguns dias de férias na casa de meu primo. Árvores enormes naquela época que permitiam nossas brincadeiras. Árvores enormes ainda hoje que lá permanecem.
O Cine São Luiz das pulgas e o Cine Aladim aristocrático. Os “Três Patetas”, quantas risadas nas tardes de domingo.
O fundo da fábrica da Philco, onde buscávamos fios coloridos para brincar. O lixão onde buscávamos canudos para atirar canudinhos de papel em vespeiros e telas nas janelas das casas, para desespero das velhas de quase quarenta anos de idade. As pipas sem cortantes, somente para mostrar sua beleza nos céus.
Junho, mês de balão, bombinhas e morteiros. O céu se iluminava com as tochas acessas e a molecada ficava até tarde da noite correndo atrás daqueles que caiam na redondeza. Julho era época de bolinha de gude e pião. O ano inteiro era época das peladas em plena rua, com bola de borracha e muita emoção.
Mãe da mula, salva, taco, lata da velha, carrinho de rolimã construído por nós…. Dias repletos de brincadeiras que não custavam nem um tostão.
O carrinho da Kibon que vendia pirulito e sorvete em palito. Aliás, vendia também o Eskibon em caixinha, que era muito caro para a meninada. O carrinho de algodão doce, a carroça do homem do fígado e da carrocinha da italiana verdureira que gritava "Olha a verdura, olha as frutas, tudo baratinho". O bijuzeiro com seu tambor da sorte. Gire e ganhe, mas que ninguém nunca ganhava.
A carrocinha da prefeitura que tentava recolher os cachorros sem donos e que nunca conseguia. A molecada corria a jogar esses cachorros para dentro das casas até que o perigo tivesse passado.
O pronto-socorro municipal, onde era cliente frequente, ora com a cabeça sangrando, ora com cortes nas mãos ou nos pés.
Ah, Tatuapé de minha infância… Quantas saudades de você! Quantas saudades de minha infância, dos amigos e das "marocas"!
Se outra infância eu tivesse, ali eu iria escolher viver… Tatuapé de minha infância, que existe somente em minha memória, eu nunca vou te esquecer.
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