Santo Padre

Quando eu entrava na adolescência, eu vi a seca de perto. Papai tinha um caminhão cor de vinho que foi cedido a SUDENE para o transporte de água. Tiraram toda a carroceria e colocaram um enorme tanque de aço tornando-se mais um famoso caminhão pipa.

Fui confrontado com uma realidade dura e que hoje, ainda não consigo esquecer. Sempre depois do almoço, papai nos levava na traseira desse caminhão e percorríamos quilômetros de terra ressequida, sem árvores, sem vida. Era menos um ajudante que ele teria que pagar. Víamos inocentemente carcaças de animais mortos, pessoas esquálidas e famintas. Para mim, naquele momento era uma aventura e para o meu irmão caçula muito mais. O vento quente rachava nossos lábios e tudo a nossa volta era somente uma paisagem cinzenta e árida.

Nas casas de pau a pique, famílias inteiras já postavam seus tambores para receber aquela água imunda tirada de um rio distante que já agonizava. Os poucos pingos que caíam da torneira do caminhão eram aproveitados por galinhas quase mortas de tanta sede. Brigavam entre si disputando uma rara chance de viver.

Confesso que não mereci tamanha realidade. Acho que vem daí a minha fome por água, por chuvas, por comidas em abundância, pelo amor aos mais necessitados. Quantas vezes ainda me pego chorando ao contar fatos desse período sombrio.

Aqui em casa foi um período difícil. Aliás, tudo foi sempre regrado. A comida era dividida em pratos que a mamãe fazia rigorosamente iguais. O prato do papai era o maior e dela era o que sobrasse da panela. Colocava água para render o caldo. Misturava com farinha e era uma festa quando a gente recebia aquelas horríveis cestas básicas com alimentos da pior qualidade. O feijão precisava cozinhar o dia inteiro para ficar mole. Foi o famoso feijão da emergência.

Para segurar o povo no campo o governo pagava uma quantia e famílias inteiras quebravam pedras para a construção de barragens. O céu de um azul intenso e sem nuvens doía nos olhos e a chuva nunca deu as caras por um período de três longos anos.No Fantástico, um repórter aos prantos, mostrava uma criança brincando com ossos de animais mortos e os saques a supermercados era uma constante. Na rodoviária, milhares de pessoas fugiam para São Paulo: A cidade dos sonhos, da fartura, dos empregos. Fui criado nessa realidade.

Na falta de tudo, em nem sabia o que era ter. Eu não tinha sonhos. Mas, o que mais me doeu em toda essa história foi quando o Papa João Paulo II desceu no aeroporto de Teresina e acenou. No meio daquela multidão sem fim estava a mamãe e o meu irmão mais velho. Por trás deles uma enorme faixa de protesto se lia: “Santo Padre, o povo passa fome!”

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