Aprender São Paulo agora é um projeto ambicioso que se coloca diante da realidade. Para captá-lo como um todo em suas diversas particularidades, é um trabalho difícil, porque São Paulo está constantemente em processos de modificações: uma cidade que parece estar sempre em mutação, sempre construindo a si próprio, se auto-remodelando, como se suas mudanças nunca tivessem fim.<br><br>São Paulo cresce. Arrabaldes ou bairros tão distantes; uns já conhecidos, outros mais recentes, circundam todos no entorno do núcleo primitivo da Vila, não tão pequena como antes. A cidade nova, nova São Paulo, nasceu dos loteamentos das antigas chácaras da Luz, do Pari, do Brás, da Mooca, do Cambuci, da Glória, da Liberdade. Bela Vista, Consolação, Santa Cecília e Bom Retiro eram os bairros da antiga São Paulo, embrião de futuras outras pequenas cidades, que ao lado de centenas de diferentes parques e jardins, diversas vilas, condomínios e conjuntos habitacionais constituem hoje o embasamento da grande metrópole.<br><br>Após uma respeitável distância no tempo, fui recriando neste depoimento, em pequenos detalhes, os retalhos desta cidade de origens e costumes diversificados e exóticos, surgidos das etnias que aqui chegaram, se formaram, viveram e se estabeleceram nos finais do quartel do século XIX, início da nova era que seria o século XX.<br><br>Reporto-me aqui, a musicalidade do genial Adoniran Barbosa, quando compôs com muita propriedade, o seu "Abrigo de Vagabundos": "Arranjei o meu dinheiro/ Trabalhando o ano inteiro/ Numa cerâmica fabricando pote/ E lá no Alto da Mooca/ eu comprei um lindo lote 10 de frente e 10 de fundo/ e construí minha Maloca." E nesse cenário sobre os últimos lampejos desta autêntica São Paulo de outrora foi que desentulhei o passado e hoje fui traçando o perfil desta cidade.<br><br>Alto da Mooca, Rua do Oratório, que na época não tinha ainda a dinâmica de rua, por ser uma extensa subida poeirenta, cansada, alongada, arrastada e que lá não tinha nenhum oratório. Ali era o bairro predominante dos húngaros e dos italianos.<br><br>Fico pensando aqui, agora, em cima, como se estivesse numa noite em Budapeste. Nas farândolas perto dali, numa esquina, uma venda de cigarros e guaraná, numa sala de cal esponjada, correntes e bolas de papel crepon desbotado, que foram de cor vermelha, sobre um estrado de madeira altíssimo, duas sanfonas indolentes dirigem a farândola. Toca uma mazurca. Estranhos não entram. Dizem que os grilos são húngaros. Não vi, nem ouvi um só grilo por ali. No ar, ouço apenas a língua magiar. Daqui do alto, se avista São Paulo. São Paulo parece estar tão longe, muito além dessa planura cor de barro, bem distante daquela vertiginosa espiral de chaminés de fábricas e dos cubos altos, oxidados do Gasômetro, da cor estanhada do zinco desbotado pelo uso e pelo tempo. Ali, naquela verdura ecológica que tem no meio do parque Dom Pedro II, uma cobra d'água parada no meio… Nas margens espraiadas, claras e limpas do córrego Tamanduatei.<br><br>Ali está São Paulo. São Paulo vista daqui do alto parece enorme de casas e gente. Casas e gentes de todos os estilos. São Paulo. Resumo do mundo.<br><br>Veja, pense. Lá, ali, por aí povos de todo o mundo plantaram sua vida. Antípodas pela civilização ou antípodas pela raça, ou antípodas pelo acaso geográfico. Amigos ou inimigos, com suas crenças religiosas, ou todos diferentes ou indiferentes. Italianos, árabes, egípcios, armênios, portugueses, espanhóis, lituanos, russos, alemães, japoneses, ingleses, húngaros, turcos, judeus. Quase todos os povos do mundo parecem viver ali, no entorno de São Paulo na mais perfeita harmonia. Todos.<br><br>Que harmonia, que equilíbrio… E que igualdade! O grande milagre do trabalho. Harmonia, equilíbrio e igualdade feitos de diferenças. Aqui em cima, no alto da Mooca, há uma tristeza. As ruas do bairro são sem calçamento, e as casas não têm, ainda, iluminação elétrica. A claridade da luz refletida é a do velho candeeiro estanhado, de querosene, que os refletores tentam inutilmente iluminar. Entramos na década de 30, quando a companhia canadense The São Paulo Ligth and Power Co. Ltda recebeu a concessão para a geração e fornecimento de energia elétrica, juntamente com a prestação do serviço de iluminação pública na cidade de São Paulo, finalmente os bairros da Mooca e do Brás receberam os primeiros bicos de luz. Os alegres moradores da Rua Caetano Pinto colocaram suas mesas na rua e enfeitaram com flores as calçadas. Dançaram e comeram até a madrugada, para comemorarem o acontecimento.<br><br>Inicialmente, havia nas casas um só bico, porque a luz era muito cara, mais de duzentos réis por mês. À medida que a renda da família fosse crescendo, punha-se outro bico na cozinha, no quarto e no quintal. A lâmpada era econômica, de baixa voltagem, o que deixava o ambiente em constante penumbra, porque não dava para pagar a conta no final do mês.<br><br>São Paulo começa a se expandir. Nascem, efetivamente, os primeiros bairros operários, nos terrenos acidentados no meio das várzeas. A baixada do Brás, com a sua Estação do Norte e a Hospedaria de Imigrantes, foi se transformando rapidamente em um bairro de pequeno comércio e reduto de operários. Brás, com suas calçadas nuas, com sua gente boa, promovendo as festas de rua, e seus moradores quase todos italianos, com suas cadeiras em frente às casas nos intermináveis bate-papos com os vizinhos…<br><br>E o comércio bucólico ambulante também já percorria os calçamentos de pedra. Os vendedores de porta em porta anunciavam as pizzas napolitanas em grande quantidade dentro de latões de zinco. Ali, no bairro do Brás, a rua era o centro de tudo. Os moradores, gente humilde e boa, viviam em casas modestas.<br><br>Também havia os populares cortiços, edificações que abrigavam muitas famílias. Um típico cortiço da época ocupava um quarteirão inteiro, num terreno baixo e úmido. Esses cortiços eram formados por pequenas moradias em torno de um pátio, o qual se estendia da extremidade da calçada até os fundos do terreno, num longo e estreito corredor. As moradias abrigavam em média de quatro a seis pessoas. Os cubículos de dormir não tinham luz, nem ventilação e viviam superlotados. À noite, eram hermeticamente fechados. Ah! Uma moradora famosa do Scopetta, um cortiço famoso da Rua Caetano Pinto, no bairro do Brás, respondeu: – "Morar em cortiço? É maravilhoso!”. Todo mundo se conhecia, havia amizade, uma mulher ajudava a outra nos afazeres domésticos. Depois, cada uma colocava umas plantinhas no parapeito da janela, sobre a luz ufana do sol na manhã recém-acordada. Cada uma queria ter uma panela bem mais areada e brilhante do que a outra, usando o sabão Pasta Arygol, que se usava na época, para dar brilho às panelas. Nos armazéns e quitandas, o sabão em pó Curinga era vendido avulso, em barricas de cinquenta quilos, pesados e repartidos em frações de meio a um quilo, à vontade do freguês, todos anotados no crédito das antigas cadernetas para serem pagas no final do mês.<br><br>Surgiam as vilas operárias que também constituíam outra forma de habitação popular na virada do século XIX na cidade de São Paulo. Muitas das indústrias que aqui se instalaram possuíam vilas em suas proximidades ocupadas pelos trabalhadores. As mais conhecidas situavam-se nos bairros do Brás e da Mooca, constituídas pelas fábricas Santana, Álvares Penteado, Francisco Matarazzo e dos Crespi.<br><br>A influência européia foi sem dúvida caracterizada principalmente pela presença do imigrante italiano que mudou a fisionomia de São Paulo. Línguas diferentes, novos hábitos e costumes, formas de sociabilidade inusitadas, organizações populares, e movimentos políticos e culturais influenciados pelas experiências européias coloriam as ruas da cidade. Mas foi, sem dúvida, a influência da colônia italiana que marcou a vida dos paulistanos. "No bonde, no teatro, na rua, na igreja, ouvia-se mais o idioma de Dante do que o de Camões". Em contraste, os bairros ricos gozavam de elegantes e amplas avenidas pelos quais desfilavam os grandes palacetes, cercados por muros, abastecidos pelos melhores serviços públicos, como rede e água encanada, esgoto, iluminação e calçamento, além de uma lei que regulamentava a construção e a ocupação de jardins e arvoredos.<br><br>Hoje, infelizmente, todos os bairros foram vítimas da desenfreada especulação imobiliária. Conquanto, fundada há 456 anos, São Paulo é uma cidade nova, assinalada por uma constante renovação das edificações antigas, as quais quase na totalidade desapareceram. São Paulo agora é uma cidade moderna, com todos os defeitos e qualidades.<br><br>E-mail: [email protected]