Para quem não conhece, é localizar. Uma rua de Vila Mariana. José Antônio Coelho (Vila Mariana que, antes da reforma ortográfica de 1942, os bondes da Light traziam no letreiro como "Vila MariaNNa"). Rua essa quase uma reta, um plano inclinado de quase um quilômetro. E que (exagero) quase chega ao Ibirapuera. Como travessas, Cubatão, Humberto "Primo", Oscar Porto (secionada pela 23 de Maio), Artur de Almeida e Caravelas. Termina bem onde "morre" a Amâncio de Carvalho e "nasce" a Tutóia. Bem defronte a uma ruela que, 50 anos atrás, se chamava "Rua Faxina". Era de terra. Agora, só falta informar latitude e longitude. Por conta de algum geógrafo.
Era de paralelepípedos; orlada de exuberantes tipuanas, das quais restam algumas – na Pelotas. Paralelepípedos cinzentos (granito?), nos quais "patinavam" (como se falava) os pobres dos muares que tracionavam os carroções. De coleta de lixo domiciliar. Mesmo com os freios da carroça acionados! Lá por volta de 1957, a Municipalidade, então, pôs em serviço os primeiros caminhões de lixo. Eram "Mercedinhos", de caçamba basculante. O lixo ia a céu aberto… Chegava a "aposentadoria" dos valentes muares.
A Rua José Antônio Coelho já começava "bonita": saudosa "Panificadora ABC", primor de lugar, jeitão europeu; inesquecível. Na esquina com Domingos de Morais, perto duma "Parada de Bonde" (dizia a placa, lá no alto). Como não lembrar? Descendo a rua, paisagens típicas do bairro: casarões, sobrados com quintais e jardins; gente sossegada, tranqüila. Um pequeno cosmo: italianos, alemães, espanhóis, japoneses, sírio-libaneses; paulistanos de todos os confins do Brasil. E gente proletária – como minha família – que tinha o privilégio de morar (de aluguel) num "bairro bom". Bom? Ótimo!
Lá onde a rua findava, era o primeiro quarteirão da Tutóia – o qual ia até a Tomás Carvalhal. De um dos lados (e por onde hoje passa a 23 de Maio), enormes chácaras. De portugueses. Floricultores e plantadores de hortaliças. Chácaras que "subiam" até a Oscar Porto. As chácaras (quem lembra?) iam até o campo de terra, do Olimpicus do Paraíso, que nos domingos de manhã se exibia com seu uniforme alvinegro, de listinhas, idêntico ao da F.P.F. Minha casa, na José Antônio Coelho, defronte a Caravelas, era confronte com uma face dessas chácaras. Daí, nosso quintal de árvores e plantas, de montão. Hoje, no lugar, enorme predião.
Já decorreu tanto tempo. Memória e olfato se confundem. Porém, creio ainda lembrar da Lacta. De quando funcionava em frente a Humberto I. Predião de tijolinhos, barulhos fabris. E um delicioso cheirinho de chocolate. Depois, mudou-se para o Brooklin, cujas redondezas foram premiadas pelos nobres aromas, "Sonho de Valsa", "Diamante Negro"…
Ao lado de minha casa, também uma fábrica. Menor, porém. Metalúrgica, coisa assim. "Artpen" (canetas?), parece que "parente" da grande ARTEB, da Pelotas. Que era ao lado do atual belo SESC.
Na José Antônio Coelho, um pouco de tudo. Bares, sapataria, empório, quitanda, fábricas. Barbeiro. Eu tinha uns nove anos. Bem de frente para a Artur de Almeida, um barbeiro sisudo. Italiano. Impaciente – se não com crianças, comigo (azar!), sim. Tinha uma daquelas danadas maquininhas manuais ("nhec-nhec-nhec". Quem lembra?). Infalivelmente, lascava a pele do pescoço, mordiscando – enquanto ia lanhando o cabelo. Era a "sutileza" de um arado quando sulca a terra. Eterno reconhecimento – e gratidão – à laboriosa classe de barbeiros. Não podemos prescindir de seu trabalho. Mas, aquela maquininha… Literalmente, de arrepiar os cabelos, não? Algum pescoço sexagenário lembra?
Uma outra lembrança de 50 anos, daquela rua. Um caminhãozinho "diferente". Que entregava café nas mercearias e empórios. Diretamente da torrefação. Eu o via vez por outra. A carroceria era um bule de café. Um "bulão". Dentro do qual vinham, acondicionados, os pacotes de café. Café o quê? "Paraventi", "Moka", "Jardim", "Seleto", "Caboclo"? Qualquer que deva ter sido, sem dúvida – como dizia a musiquinha – "Êta cafezinho bom!".
A José Antônio Coelho tinha só uma condução. Linha de ônibus que cortava um quarteirão: da Cubatão a Humberto I. 47 – Vila Clementino, da CMTC. Do Anhangabaú até o Hospital São Paulo. Onde havia (como se dizia) um "dispensário", de vacinar as crianças. Já nos anos 60, creio que o velho 47 deva ter sido internado no Hospital, porque em seu lugar vieram ônibus novos: "Viação São Benedito", cuja garagem era na Luís Góis. A linha ou era "Mirandópolis", ou "Planalto Paulista". Tanto faz, um perto do outro.
No último quarteirão da José Antônio Coelho, imponentes edificações da "Estamparia Caravelas". Ainda hoje em pé. A bela caravela em alto-relevo, numa das paredes. Cujos operários e operárias "cumpriam um ritual", de manhãzinha e à tardinha. Pontilhando a rua com seus macacões de brim, azuis. Respectivamente, vinham para o trabalho e retornavam, para o justo descanso. Mais uma jornada de trabalho. São Paulo, sinônimo "trabalho"… O "homem do realejo", o comprador de "roupa velha", o vendedor de leite de cabra; o homem do carrinho de algodão doce, os entregadores (domiciliares, de caminhão) de leite – garrafas de vidro em engradados de ferro: "Leco", "Vigor" e "Paulista". A rua, hoje, não os tem mais… E que rua terá?
As luzes amareladas, de filamento, dos postes da "São Paulo Light" (alguns postes, ainda de ferro): ao primeiro anoitecer, vinham acendendo – milionésimos de segundo, umas após as outras, quase que imperceptivelmente. Só mesmo olhos infantis é que poderiam captar tal fenômeno… Luzes amareladas que talvez quisessem concorrer com as estrelas do céu vila-marianense. Mas não com a majestática lua-cheia. Céu fácil de se avistar, à época. Poucos – ou nenhum – os prédios altos. De certos trechos da rua, avistava-se longe.
Imperdoavelmente, não procurei saber quem terá sido o ilustre José Antônio Coelho. Que deu seu nome à rua (outrora, ao menos) tão linda. Algum paulistano poderia esclarecer, por obséquio?
Cinqüenta anos passados e tanto a retina quanto os "neurônios da memória" guardam – até que firmemente – muita coisa dos vinte anos em que lá morei. Raramente passo por ela. Nem é meu caminho, normalmente, nem de propósito a ela vou. Mas gosto dela, ainda. Como que num filme, entretanto, até gostaria de rever tudo: paralelepípedos cinzentos, luzes amareladas, tipuanas exuberantes, aqueles vendedores, o futebol de bola-de-meia… Aspirar o aroma de chocolate – que, creio, nem no Brooklin deve estar mais. Tudo seria prazeroso. Porém, menos a danada da maquininha manual – aquela do "nhec-nhec-nhec". A maquininha seria até capaz de mordiscar a própria memória…
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