Nasci no interior, em Jacareí, em 1954. A família da minha mãe há dezenas de anos se estabeleceu em São Paulo, capital, por isso eu não via a hora de chegarem as férias para que eu pudesse ir para a casa da minha tia Claudina que ficava na zona leste, na Rua Mariano de Souza, uma travessa da Avenida Conselheiro Carrão.
Àquela época a região era pouco desenvolvida, mas para mim cheia de encantos. A casa era grande e bonita e tinha porão e jardim, além do mais era o quartel general dos encontros com os primos e tudo lá era festa.
Me lembro de almoços incríveis que lá aconteciam! Muita cantoria, parentes chegando de outros bairros, eu correndo com os meus primos, parecia uma família italiana.
Quando chegava, eu adorava ir na casa da minha tia Geralda, que era casada pela segunda vez e morava bem perto da casa da tia Claudina. É que no seu casamento ela havia ganhado, de presente, uma boneca de louça vestidinha de noiva e que deixava de enfeite sobre sua cama. Eu era encantada pela bonequinha e me lembro que ia chegando, como quem não queria nada e, de repente, pedia pra pegá-la um pouquinho. A minha tia até achava graça do meu jeitinho, até hoje ela comenta.
Adorava o café da manhã na casa da tia Claudina, era animado, com muita gente falando e rindo, mesa grande, bem diferente do dia-a-dia da minha casa onde apenas morávamos eu e meus pais.
Sempre fui muito esperta e ficava ouvindo as conversas sobre as histórias da família. Feitos dos antigos antepassados, histórias de casamentos e batizados, compra e venda de propriedades, quem estava namorando quem, quem estava prestes a se separar… Naquele tempo já existiam essas dissidências!
Essas conversas eram ilustradas por fotografias antigas que eram bem guardadas em uma caixa de madeira de um faqueiro antigo. Essa caixa era revestida de veludo vermelho por dentro e cheirava a perfume… Isso acontecia bem à noite, quando todos tomavam um delicioso chá com bolachas Aymoré, que minha tia servia em uma lata decorada. Logo depois nos acomodávamos em camas improvisadas com muito carinho e eu adormecia na expectativa do outro dia.
Em alguns dias íamos passear no centro. Eu ía no bonde sentada no colo do meu pai olhando pela janelinha encantando-me com a paisagem diferente do interior. Sempre íamos ao Vale do Anhangabaú, eu achava aquele lugar encantado!
Íamos às lojas Pirani, Cliper, Mappin. Um dia meu pai comprou uma frasqueira marrom pra minha mãe e um chapéu Panamá pra ele.
Depois íamos à Móoca almoçar na casa do meu tio Laguna e da minha tia Nêne. Ela era muito caprichosa e fazia uma comida deliciosa, não encontrei quem fizesse empadas de camarão como ela e tenho ainda na memória o cheiro de sua cozinha.
O café da tarde era impreterivelmente na casa da Dona Joana e do Seu Otaviano Meirelles. Ela era argentina e eram compadres da minha avó Marcela, padrinhos do meu tio Orlando.
Era um casal sem filhos e os dois adoravam o afilhado. Vinham sempre a Jacareí, e me lembro que minha avó se preparava muito bem para recebê-los, pois apesar de simples eram muito finos.
Também me ficou na memória, incitando a saudade, os perfumes que minhas tias de São Paulo usavam: Jerry Vien e Cabouchat, acho que era assim que se escrevia. Eu era bem criança e até hoje não encontrei perfumes deliciosos como aqueles.
Poderia ficar por dias registrando saudades da São Paulo daquele tempo, cidade que sempre fez parte da minha vida, palco de férias felizes que guardo como tesouros na memória. Férias que ao final voltávamos para o interior tomando o trem na belíssima Estação da Luz! Trem da Central do Brasil, onde meu pai trabalhou por quarenta anos… Meu pai! Quanta saudade dele! Responsável por eu, hoje, poder escrever essas memórias! Que Deus o tenha no melhor lugar do céu…
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