Rafael, o craque

1946 – depois de um "rachinha" no Parque Dom Pedro II, nos reunimos no salão de recepção da paróquia de São Vito Mártir. Quase todos Congregados Marianos, dirigidos pelo Roque Teófilo, colaborador da antiga Rádio 9 de julho e, posteriormente, militar e mensageiro cristão pela Rádio Bandeirantes.
O Roquinho, como o chamava-mos carinhosamente, atendendo ao apelo da
garotada, como eu, na faixa de 14 a 16 anos, resolveu fundar um clube de
futebol. Em junho desse ano nascia o Juvenil São Vito, posteriormente o
“Extra” e ainda depois o São Vito F.C.
Quase todos os elementos de origem italiana, “bareses”, de Polignano à Mare, pequena província de Bari e que hoje empresta seu nome a antiga rua Álvares de Azevedo, onde está localizada a igreja de São Vito.
Na formação da diretoria, além de mim, estavam meu primo Vicente Carrieri, Rafael Chiarella, Francisco Stoppa e o Roquinho, naturalmente.
Nos sobrenomes de todos, no time, predominavam os oriundos, Chiarella,
Laruccia, Monaco, Carone, Labate, Calcagnite, Stoppa, Teófilo, Dragone,
Batelli, Zupo, Carrieri, Scarico, Latini, Borreli, etc. Junto à “baresada” contavamos, também, com os espanhóis Rufino, Salgueiro, Ruiz etc. Árabes como Scaf, Simbol, Moises, Carduz etc.
É com muita saudade que recordamos os jogos de rua, que antecederam a
formação do Clube São Vito, onde já se vislumbrava o vistoso e brilhante
futebol do Rafael Chiarella, que todos queriam ter do seu lado nos
“rachinhas” de rua ou no Parque Dom Pedro II. Pra se ter uma idéia de como o Rafa tinha uma intimidade com a bola, a partir de uma jogada simples, mesmo que seu marcador soubesse o que ele faria, driblava com toda a facilidade. Tinha um lance, quando a pelada era disputada na calçada do “parafuso”, antiga metalúrgica na antiga Rua Álvares de Azevedo, em que ele usava a parede como tabela, como se fosse snooker, deixando seu adversário com cara de bobo, inclusive eu. Não era preciso ser adivinho ou futurologista pra se prever o futuro craque que seria o Rafael.
Os jogos do São Vito eram todos nos campos do adversário e quando
chegávamos a assistência era enorme, porque sabiam que aquela tarde ia ter Rafael. Só uma coisa ele decepcionou: palmeirense “roxo” de carteirinha, mesmo com ajuda de parentes, conselheiros do Palmeira, não conseguiu entrar no “verdão”. Na época o Palmeiras já sofria do assédio dos famigerados “corneteiros”, que sempre prejudicaram o time na seleção de novos valores.
Com a ajuda de Nardo, outra vítima dos “corneteiros”, foi pro Corinthians, com 17 ou 18 anos, completando uma carreira simplesmente brilhante, tendo conquistado, entre tantos títulos, o de Campeão do XIV Centenário, em 1954.
São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos, Portuguesa etc. tinham, na
época, grandes craques mas, o Rafa se destacava pelo finíssimo futebol que praticava e encantava. Ele era a somatória de um Heleno de Freitas, com Ademir da Guia e Didi.
Hoje, só resta a lembrança daqueles bons tempos. O Rafael, como quase todo o time do Coringão daqueles anos, já faleceu.

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