Redescobrindo o Centro em duas horas

Sempre que passo pelo centro antigo de São Paulo é de forma muito rápida, isto faz com que o meu trajeto seja o mesmo para economizar tempo, porém, na última vez foi diferente.
Era 20 de junho último, por volta de 11:00 horas, um frio de 14ºC, garoa bem fina, quase um sereno, céu carregado de nuvens cinzentas e eu com duas horas de folga entre uma coisa e outra. Resolvi aproveitar o pequeno espaço de tempo e andar por algumas ruas do centro, numa área que eu não ia há muitos anos.
Desci na Estação Sé do Metrô e, em meio a passos apressados fugindo da garoa fina, via ao fundo do corredor de gigantes palmeiras a grande igreja em tons de cinza e azul claro, era a Igreja da Sé. Ao redor, os antigos prédios agora mais cuidados e preservados, os jardins estão lindos após a reforma se integrando ao contexto. Ainda há alguns meninos de rua por ali que enrolados em cobertores se protegiam em cantos do jardim, os pequenos engraxates também buscavam espaço para se abrigar e trabalhar, embora não houvesse muitos fregueses num dia de chuva, o cheiro do churrasco grego tomava conta da área e uma pequena fila já se formava no pequeno bar, bancas de revistas, o monumento ao Padre Anchieta rodeado por antigas árvores, o senhor da pequena banca de moedas perto do prédio da Caixa Federal não se intimidava com o frio e debaixo de um pesado casaco oferecia curiosidades aos apressados pedestres, na esperança de haver entre eles algum colecionador. Cartazes gigantes ao lado da entrada do negro prédio de granito da Caixa Federal divulgavam exposições da Caixa Cultural, impossível não entrar para conferir. Continuei meu caminho e um espaço se abriu à minha frente. Cheguei ao Páteo do Colégio. Ao centro, o lindíssimo monumento e à direita a pequena igreja branca com suas grossas paredes resistindo a séculos de mudanças contínuas, ela preserva um dos mais importantes trechos da história da cidade. O museu, ao lado da igreja, comprova isto com peças ricas que constatam a importância do local e mostra precisamente o início de São Paulo. É uma verdadeira viagem no tempo. Ao lado do museu há um Café que exalava um aroma indescritível por todo o jardim interno do prédio. Impossível resistir. Tomei um café acompanhado de um pão-de-queijo fresquinho e tranqüilamente observei o vento e o chuvisco batendo nas árvores do pequeno e arrojado jardim.
Continuei meu caminho passando pelo pequeno viaduto sobre a ladeira e avistei o início da Rua 25 de Março, Terminal Pedro II e parte da região do Mercado Municipal, locais que visitarei em outro dia. Mais à frente, virei à esquerda, entrei na Rua João Brícola e passei pelo branco Edifício Altino Arantes (conhecido como prédio do Banespa, hoje pertencente ao Grupo Santander), com a bandeira do Estado de São Paulo tremulando com toda sua grandiosidade, lá é possível, com o acompanhamento de guias, conferir através de visitas ao topo do prédio a linda vista da cidade, inclusive há o museu que possui um acervo de obras famosas e curiosidades além de ampla área de exposições onde ocorria uma mostra sobre o Centenário da Imigração Japonesa. Em seguida, à direita, passei pelo pequeno espaço rodeado por restaurantes e cafés onde ao centro existem bancas em madeira escurecida entre grandes vasos de plantas, num estilo que marca pela sensação de acolhimento e limpeza, há inclusive uma banca para os engraxates. A Rua São Bento era uma das saídas do pequeno largo e ao final o Mosteiro de São Bento. Entrei e conferi a riqueza de detalhes existente em seu interior e sua arquitetura. Há muito tempo não ia lá e parece estar mais bonito agora. Numa pequena lojinha em sua lateral são comercializados produtos produzidos pelos monges. Ao sair do mosteiro, à direita, vi o Viaduto Santa Efigênia, que visitarei numa outra oportunidade. Voltei pela Rua São Bento e o vento típico do local permanece inalterado desde a primeira vez que passei por ali, porém, a aparência é mais limpa depois das novas regras implantadas em relação às fachadas dos prédios, o Largo do Café, Rua da Quitanda, Rua Direita, Rua XV de Novembro, Praça Patriarca, local onde também há um museu no subsolo, Viaduto do Chá, impossível não parar e observar esta paisagem que é tão utilizada como pano de fundo por tantas emissoras de TV e onde tantos fatos marcaram a história da cidade e do país, local marcado ainda pela beleza e arquitetura. Uma verdadeira explosão de estilos de pessoas e prédios, a Prefeitura de São Paulo, o jardim suspenso, no antigo prédio do Banespa, o antigo prédio da Light. No início do viaduto, à direita, as escadarias limpas e a fonte com as esculturas dos negros cavalos, a dar a impressão de que estes iam saltar rumo aos jardins do Vale do Anhangabaú. Tudo agora está limpo e claro. A Rua Libero Badaró, Xavier de Toledo, o antigo prédio do Mappin com seu grande relógio me lembrava que eu ainda tinha cerca de uma hora para continuar meu passeio, o Teatro Municipal com suas escadarias e detalhes externos incríveis, imagine lá dentro como será, Barão de Itapetininga, Praça Ramos de Azevedo, Rua Conselheiro Crispiniano (lembrei da iluminada esquina com a Casa Piter, de roupa masculina, tão famosa na década de 70/80), Rua 24 de Maio com suas galerias. Naquele dia, em frente à C&A havia uma apresentação, promovida pelo SESC 24 de Maio, onde um grupo francês fazia acrobacias em cordas num enorme palco e muita gente assistia, pois era horário de almoço, parei e assisti também. Na região há muitas galerias de rock, aliás, até a década de 90 ainda encontrávamos em algumas galerias várias lojinhas de pedras brasileiras, porém, desta vez não encontrei nenhuma. Agora as galerias estão mais voltadas para os jovens, com lojas de piercing, roupas e acessórios mais descolados, tatuagens, cd’s, etc. A garoa já não caia mais, porém deixou um vento muito frio nos corredores entre os prédios. Rua Dom José Gaspar, Rua 7 de Abril, o Médico das Canetas (onde mais encontraríamos algo assim) e Rua Xavier de Toledo e por fim o Metrô Anhangabaú. Praças limpas, calçadões movimentados de gente em horário de almoço, trabalhando, comprando ou passeando. Pessoas de terno, empresários, jovens de jeans e tênis, lindas jovens em seus terninhos pretos, boys correndo para alcançar ônibus, moto-boys apressados, restaurantes, barzinhos, lanchonetes e cafés lotados, barulho de xícaras e pratos. Aromas, sons, frio e pessoas, tantas vidas num espaço tão pequeno em relação ao país, porém, tanto já mudou e ainda muda no destino do país em decorrência de decisões tomadas neste pequeno espaço que é o centro velho de São Paulo e que agora está valorizado e muito mais atraente, tornado-se um belo espaço para um passeio entre um compromisso e outro. Há muitas curiosidades, exposições, eventos, locais históricos em meio aos prédios, lojas, bancos, igrejas e praças. Seja em uma, duas horas ou um dia inteiro, com certeza voltarei lá para redescobrir as riquezas constantes nas ruas do centro e apreciar sua beleza e charme.

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