Anos 80, morávamos, aqui na zona sul, em Santo Amaro, quando fui transferido a serviço de uma multi, e recordo-me de um fato marcante que me tornou mais paulistano.
Era uma constante irmos passar o fim de semana na, então ainda selvagem, praia de Morro Branco, distante uns 80 km de Fortaleza, onde ficávamos hospedados na casa de praia de um amigo.
Lá tive a oportunidade de conhecer o maior e mais famoso Mestre Jangadeiro do Ceará: Agripino; que inclusive trabalhou em uma novela da Globo em algumas cenas rodadas lá, tempos depois. Sempre com um sorriso nos lábios e um olhar de gente simples e cativante, inspirando confiança e integridade.
Morava em um casebre simples, de barro batido, que mal acomodava duas pessoas, cobertura de sapé e como camas… Redes. Ele e mulher. Os filhos, já adultos, eram vizinhos e formavam uma pequena comunidade de pescadores que viviam da pesca, sobretudo, na época, de lagostas. Tratava-o, íntimos que ficamos, como Mestre Velho e ele me chamava de Mestre Novo.
Às vezes, saíamos ao alvorecer, de jangada, mar adentro, navegando léguas e léguas cujas praias e morros desapareciam no horizonte e só víamos águas por todos os lados.
À tarde, retornávamos, muitas vezes, com peixes e outras não, mas valia a aventura de singrar os mares em uma tosca jangada, cuja sensação era como se fosse um marinheiro da Era das Grandes Navegações – Descobrimento.
Certa ocasião, fui com ele, de carro a um local chamado Praia da Caponga, comprar aipim (mandioca) e carne de sol. Estávamos para retornar quando um aglomerado na praia nos chamou a atenção, fomos lá. Uma enorme tartaruga marítima, de barriga para cima, creio que de um metro e trinta de comprimento e não sei quantos quilos, mas grande realmente. Ao seu lado, o pescador que a pescou com rede, afiando uma faca para sacrificá-la e vender a carne.
Ao nos ver, e cumprimentando, respeitosamente, o Mestre Agripino, parou a faina e aproveitando, pedi ao Mestre que o indagasse para saber quanto ele queria pela mesma. Mestre Agripino, com o seu carisma peculiar, falou:
– O Paulista aqui quer saber quanto você quer por ela.
Titubeou, olhou-me e falou o tanto…
– Mestre, pergunte a ele se aceita um cheque para descontar na Bodega e que você garante.
A palavra do Mestre Agripino, era suficiente…
Antes, perguntei:
– Mestre, e se soltar no mar, ele não vai pegá-la de novo?
– Mestre Novo, a hora que colocá-la no mar, ela vai "bater" na África…
Acordo feito e o pessoal a levou para o mar e a soltou, e, célere, foi nadando sem parar até desaparecer…
Aí, a surpresa: quase que uníssono, a turma toda bateu palmas e gritou:
– Aí Paulista! Aí Paulista! Viva o Paulista!
Senti-me até constrangido e fomos à Bodega onde fiz o cheque e ofereci uma rodada de cervejas…
Retornei ao Morro Branco, feliz e orgulhoso por ter salvo uma criatura inocente.
E anos mais tarde, quando à capital paulista voltei a residir, lembro-me sempre do feliz gesto que tive oportunidade de fazer e tenho certeza, qualquer um de nós faria o mesmo.
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