Quem? Eu?

<br>"Será, será que o Juca do Brás / E o Juca da Mooca são o mesmo rapaz / Se não for o mesmo tem Juca demais".<br><br>Esse refrão "grudou" na minha cabeça de tanto tocar no rádio quando eu era criança, mas como eu não entendia o sentido da letra da música, fiquei com a idéia de que ela falava alguma coisa sobre dois sujeitos que tinham "um a cara do outro" e eram vizinhos de bairro. Imaginação de criança.<br><br>Com o tempo fui percebendo que aquilo que eu pensava que acontecia na música não era tão difícil de acontecer na realidade. Cansei de encontrar pela rua gente parecida com algum conhecido (às vezes até sósia) e também já fui confundido com outras pessoas, que me disseram que deveria ser meu irmão gêmeo.<br><br>Esses foram trechos de uma conversa que começou na festa de aniversário do Edu, depois que fomos apresentados a um rapaz parecidíssimo com nosso amigo Marcelinho, que havia falecido há alguns meses. Foi uma surpresa geral.<br><br>O Zeca, que desde a época de escola sempre foi uma espécie de "enciclopédia ambulante" da turma, lembrou de ter lido em algum lugar que "em São Paulo existem muitas pessoas com feições parecidas e rosto comum, porque a população da cidade foi formada por famílias numerosas, que por sua vez tiveram grandes ramificações". Ou seja, Marcelinho e o rapaz que conhecemos teriam um parentesco distante. Não convenceu muito.<br><br>Mas o que me deixou intrigado foi a quantidade de casos, na maioria engraçados, que foram contados sobre confusões por causa da semelhança de fisionomia entre duas pessoas. Quase todos tinham uma história para contar. <br><br>Fui embora pensando se realmente essas coisas aconteceriam mesmo tanto assim em São Paulo.<br><br>Vou relatar alguns desses casos, sendo o mais fiel possível, pois posteriormente tirei algumas dúvidas e relembrei detalhes com quem os havia contado na festa:<br><br>Contado pelo Rodrigo:<br><br>Meu cunhado Fabio, estava caminhando pela Avenida Angélica e ouviu gritos vindos de dentro de uma farmácia:<br><br>- "Craudio! Ô Craudio! Craudio”! <br><br>De repente ele sentiu uma pancada nas costas. Era uma senhorinha que tinha lhe dado uma bolsada.<br><br>- "Você está surdo, Craudio”? <br><br>Apesar do susto, e da raiva, ele não falou nada. Pensou que olhando de perto a senhorinha perceberia o engano. O engano foi dele. Levou outra bolsada. Depois parecia aquele quadro da "Velha Surda" do programa "Praça da Alegria". Ele tentando explicar e a senhorinha tentando lhe dar outra bolsada. Foi uma situação chata, mas o pior foi o constrangimento de ser vaiado pelas pessoas que tinham parado para assistir a cena quando ele fugiu atravessando a avenida correndo entre os carros. <br><br>Contado pelo Nilson:<br><br>Eu e um colega de trabalho, chamado Valdeci, fomos atender a um cliente no bairro da Lapa, e na volta entramos em uma agência bancária para que ele pagasse uma conta. Saindo do caixa, Valdeci foi chamado ao balcão por uma sorridente funcionária do banco, que lhe perguntou se ele havia feito o depósito. Na hora nós pensamos que ela estivesse fazendo alguma pesquisa ou promoção de seguro ou cartão de crédito. Educadamente, ele respondeu que havia apenas pago uma conta e pediu desculpas à moça por não poder lhe dar atenção naquele momento. Ela então deixou de lado a simpatia, e num tom de voz ríspido avisou que sendo assim teria que resolver o problema de outra maneira, e voltou para sua mesa. Não entendemos nada. Em seguida outro funcionário se levantou, cumprimentou o Valdeci, e lhe disse que daria um jeito de segurar mais um dia, mas que era só o que ele poderia fazer. Continuamos na mesma, e sem outra coisa a fazer, fomos saindo, quando entrou no banco um rapaz, que ao ver o Valdeci veio lhe falar:<br><br>- “Vim fazer seu depósito seu Cristóvão, eu demorei por causa da fila no outro banco”.<br><br>Apesar da minha insistência, o Valdeci, que era muito tímido, só queria ir embora e não se interessou em esclarecer a situação nem procurar saber quem era seu sósia.<br><br>Essa a Wania se lembrou, que na empresa onde ela trabalhava, o pessoal costumava falar sobre uma confusão que aconteceu na banca de jornal em frente ao escritório, na Avenida São Luiz, depois que o jornaleiro entregou um envelope recheado com revistas pornográficas a um senhor que entrara na banca para comprar o jornal. O homem ficou indignado, e o jornaleiro, muito sem graça, perguntava se ele não teria irmão gêmeo.<br><br>Para ter os detalhes sobre essa, Maria Laura me colocou em contato com o simpático Seu Elias, amigo de seu pai. Ele contou que antes de se aposentar, costumava almoçar com sua esposa no Restaurante Fuentes, na Rua do Seminário. Numa dessas ocasiões, ao pedir a conta, foi informado pelo garçom que ela havia sido paga por um cavalheiro que lhe deixara um bilhete. Ao abrir o tal bilhete Seu Elias encontrou uma mensagem mais ou menos assim: <br><br>"Que coincidência. Pensou que ninguém ia te encontrar por aqui? Eu também estou dando minha escapada. Onde você arrumou essa gata? Se ela tiver uma irmã, me apresente. Amanhã telefono".<br> <br>Ele escondeu o bilhete da esposa e disse que tinha sido cortesia de um cliente.<br><br><br>Essa foi contada pelo Mario Sergio:<br><br>Eu trabalhava com um engenheiro venezuelano, que chegara ao Brasil há pouco mais de um ano. Um dia ele chegou ao escritório dizendo que havia se mudado e que a sua nova vizinha de porta era tão parecida com dona Silvia, a gerente financeira da empresa, que só poderia ser sua irmã gêmea. Ele ficou tão entusiasmado com aquela semelhança que as colocou em contato por telefone e depois promoveu o encontro das duas, convidando-as para festinha que ofereceu no seu novo apartamento. E lá fomos nós, na maior curiosidade para conhecer a "irmã gêmea" da dona Silvia.<br><br>Esqueci de mencionar que o nosso amigo venezuelano tinha origem japonesa, e talvez por isso lhe faltasse, digamos, um pouco de malícia, pois quando as duas "irmãs" foram colocadas frente a frente todos ficaram constrangidos. Resumindo, eram duas mulheres morenas, com mais de cinqüenta anos e até certa semelhança no biotipo, mas a única coisa que tinham em comum é terem passado pelas mãos de médicos (talvez tenha sido o mesmo) que usavam a mesma técnica de cirurgia plástica, que as deixou com rosto parecido e a mesma boca de Botox.<br><br>Bem, essa última não tem muito a ver com o tema, mas não podia deixar de ser contada…<br><br><br>E-mail: [email protected]<br><br>