Sábado, noite fria, fim de outono em São Paulo e aqui pelos lados da região sul os termômetros marcando quinze graus…
Todos saíram, somente meu netinho e eu, em casa ficamos…
– Vô, por que você não quis sair?
– Ah, muito trânsito e lá no shopping está tudo cheio e, como você disse que não queria ir, fiquei contente com a sua companhia e vou contar uma história que lhe havia prometido… É de São Paulo antiga… Dos tempos de meus pais, quando ainda era romântica a cidade que moramos e não havia esta balbúrdia de hoje. Mas bem antigamente, nos tempos dos pais de seu avô, ou seja, seu bisavô, tudo era mais calmo e tranquilo, caía a garoa, que é aquela chuvinha fraquinha que de vez em quando ainda aqui cai. Serenava como se dizia… Meu pai com a voz de tenor que tinha, sempre cantava uma valsa que nunca esqueci, dos tempos que queria ter conhecido. A canção era:
“Lampião de gás, lampião de gás,
quanta saudade você me traz.
Da sua luzinha verde azulada,
que iluminava a minha janela,
do almofadinha lá da calçada,
palheta branca, calça apertada.
Do bilboquê, do diabolô, me dá foguinho, vai no vizinho de pular
corda, brincar de roda, de benjamin, jagunço e chiquinho.
Lampião de gás, lampião de gás,
quanta saudade você me traz.
Do bonde aberto, do carvoeiro,
do vassoureiro com seu pregão,
da vovozinha muito branquinha,
fazendo rosca, sequilhos e pão.
Da garoinha, fria, fininha,
escorregando pela vidraça,
do sabugueiro grande e cheiroso,
lá do quintal da rua da Graça.
Minha São Paulo, calma e serena,
que era pequena mas grande demais,
agora cresceu, mas tudo morreu,
lampião de gás, que saudades me traz.
Lampião de gás, lampião de gás,
quanta saudade você me traz”.
– Vô, vô, você me compra um lampião de gás?
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