Quebra, quebra no Cine Trianon

Os anos 60 em São Paulo era uma maravilha em termos de cinemas, no centro da cidade tínhamos a famosa Cinelândia, e também nos bairros tínhamos muitos cinemas. Só no centro da cidade é que havia a famosa sessão da meia-noite, de sábado para domingo, nos cines Marabá, Ipiranga, Metro, etc.

Mas, nós tínhamos, na Rua da Consolação, os cines Ritz, e o novo Cine Trianon. Era uma maravilha de cinema, tudo novinho, tinha um perfume muito agradável, tinha sido inaugurado fazia poucas semanas, foi em 1956, eu tinha 16 anos de idade. O filme foi terrível como o inferno, com Audie Murphy (foi a história da sua vida na guerra, ele tinha sido herói da Segunda Guerra Mundial).

O Cine Trianon passou a fazer parte da nossa mocidade, todos os amigos se encontravam sempre na porta do cinema (com o futuro alargamento das ruas da Consolação e Av. Paulista, o cinema já tinha sido construído com um grande recuo da rua, mais ou menos uns 60 metros de recuo, ficando uma grande praça na frente do cinema). Ali passou a ser o nosso ponto de encontro e para paquerar as meninas que por ali passavam, o cinema estava sempre lotado, até que conversando com o gerente (já tínhamos feito uma grande amizade) conseguimos que ele fizesse uma sessão da meia-noite no Cine Trianon, e foi em um domingo à noite, com um filme do cômico mexicano, Cantiflas, era um filme livre (os menores acompanhados dos pais podiam entrar, apesar da sessão ser à meia- noite).

Foi um grande sucesso, o cinema estava repleto, tinha gente sentada no chão, apesar do sucesso o Cine Trianon nunca mais teve a sessão da meia-noite. Grandes filmes foram exibidos no Cine Trianon: “O belo Antonio”, “Horas sombrias”, “Assim caminha a humanidade”, etc. Durante anos o Cine Trianon passou a ser a nossa querida casa, estávamos sempre próximos ao cinema, até que em uma certa sexta-feira, estávamos assistindo a um filme na sessão das 20h quando escutamos um grande barulho vindo da sala de espera do cinema, a sessão foi interrompida, saímos para ver o que tinha acontecido: tinha uns 15 soldados do exército quebrando tudo, vitrine de doces, sofás, vidraças, cadeiras, cartazes, inclusive onde o bilheteiro colocava as entradas, quebraram tudo, deixaram a sala de espera aos cacos.

Ninguém sabia o motivo daquela baixaria, dias depois soubemos que um porteiro tinha discutido com um soldado do exército e ele tinha voltado com a sua turma para se vingar do porteiro. Mas, tudo acabou em pizza e o cinema continuou com sua trajetória de sucessos, até que em 1968 passou a chamar-se Cine Belas Artes, no começo o Belas Artes estava mal de público, até que anos depois resolveram dividir as salas em 6 cinemas, até o seu fechamento em 2010.

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