O Brás e o futebol

Mundial interclubes – a chegada

O personagem desta história não sou eu; é meu nono – o velho Chico – a quem quero render aqui minhas homenagens por tudo que fez por mim e pelo fato de ter me tornado palmeirense. O outro personagem é o Palmeiras, claro!

Corria o ano de 1951. Eu tinha 11 anos. O Palmeiras já tinha vencido o campeonato paulista de 1950 – o Ano Santo – e estava embalado por essa conquista, com um excelente plantel. Esclareço que não existia à época campeonato brasileiro; então a conquista do paulista era o píncaro.

O cenário em que vivia era o Brás, próximo ao Largo da Concórdia, onde residia com meus pais e meus avós; lá, na época, contado um a um, de cada cem colegas, 90 eram palmeirenses, alguns corinthianos e dois são paulinos.

Famílias de operários que acordavam muito cedo, jantavam pelas 18h, mas que não dispensavam a conversa entre os vizinhos após o jantar; longos papos sentados em cadeiras colocadas nas calçadas e sempre acompanhadas com alguma música. Flautas e bandolins enchiam de melodias nossos ouvidos.

O desastre da Copa do Mundo de 1950 ainda estava machucando todos os brasileiros, ainda mais que não tínhamos nenhuma grande conquista em qualquer esporte até aquela época. A Copa Rio ia ser disputada e os oitos clubes representavam o que havia de melhor no futebol mundial; seriam duas chaves – uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. O Palmeiras, como campeão paulista, faria parte da sede paulista junto com a Juventus da Itália, o Estrela Vermelha da Iuguslavia e o Olimpic da França. No Rio ficariam Vasco da Gama – como campeão carioca de 1950 – o Sporting de Portugal, o Áustria Viena e o Nacional, que representava o país campeão do mundo do ano anterior – o Uruguai.

O Palmeiras, depois de duas vitórias caiu frente a Juventus, potência mundial, considerado por todos o favorito para ganhar a Copa. Mesmo assim fomos para o Rio, classificados em segundo na chave paulista para a disputa da fase final da competição. Teríamos que enfrentar O Vasco da Gama – primeiro da outra chave. Parênteses – o Vasco era a própria seleção brasileira. Dos 11 jogadores, nove eram do Vasco.

Ganhamos a primeira partida por 2×1, empatamos a segunda – 0x0 e fomos para a final. Contra quem? A Juventus da Itália; ele mesmo! A que nos tinha sapecado de 4×0 na primeira fase e no Pacaembu. Tínhamos que disputar dois jogos contra a Juventus. No Maracanã! Resultado: ganhamos a primeira de 1×0 em 18 de julho e empatamos a segunda quatro dias depois- 2×2 – gols de Rodrigues – o Tatu e de Liminha – este gol quase matou o nono Chico….e a mim.

Estávamos ouvindo a Rádio Panamericana na sala de casa. Palmeiras – campeão mundial interclubes – o primeiro! Lavamos a honra dos brasileiros. Gostaria de fazer alguns comentários sobre o público que assistia a final no Maracanã. Foram 100933 pagantes, dos quais mais de 40000 palmeirenses que se dirigiram para o Rio; foram de todo o Brasil, mas principalmente de São Paulo. Esta sim foi a maior invasão que o Rio de Janeiro assistiu. Muito maior que a invasão Corinthiana! Por quê? Porque a população era muito menor que na década de 70; porque não existia a indústria automobilística no Brasil; porque raras pessoas possuíam veículos e os meios de transporte eram muito mais precários que à época da festejada invasão Corinthiana. De resto fica o agradecimento eterno aos vascaínos que derem todo o apoio depois de terem sido derrotados pelo próprio Palmeiras…

A chegada dos jogadores palmeirenses – Fabio – Salvador – Juvenal e Dema – Túlio e Luis Villa – Lima, Ponde de Leon, (Canhotinho), Liminha, Jair e Rodrigues, mais os seus reservas se deu na Estação Roosevelt, também conhecida como Estação do Norte, próximo ao Largo da Concórdia, muito próximo de onde eu morava.

Anoitecia no dia da chegada quando o velho Chico me pegou pela mão e lá fomos nós ver a chegada dos campeões do mundo. E o que vimos? Milhares e milhares de pessoas emocionadas, cada uma com uma folha de palmeira acenando – parecia uma procissão de ramos, no domingo que antecede a Páscoa. Como nosso símbolo é o periquito, muitos pegaram galos e os pintaram de verde, levantando-os sobre a multidão e dizendo que o periquito tinha virado galo. Muitos fogos! Raros deixaram de verter lágrimas.

Como o velho Chico era muito “entrão” – ele já tinha se jogado em cima do vagão do trem quando o Sacadura Cabral tinha vindo a São Paulo para ser homenageado – depois de cruzar o Atlântico – eu e ele, ou melhor, ele e eu fomos ”varando” a multidão e consegui ficar na frente do Lima e do Luis Villa. Quase morri de emoção de novo. Dali seguimos a carreata e a “andata” por inúmeras ruas de São Paulo até o Parque Antártica e por onde a delegação passava era só festa, folhas de palmeiras, galos pintado de verde, papel picado e muitos fogos. Um verdadeiro carnaval em julho.

Bem, para finalizar, devo dizer que aquela noite eu não consegui dormir. Mas valeu! E valeu muito!

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