Às vezes, sozinho, fico pensando: faz 15 anos que moro aqui, que não é mais a minha querida Parada Inglesa (um dia ainda voltarei para lá) e conheço uma meia dúzia de pessoas. A maior parte das pessoas daqui não sabe o meu nome e eu não sei o nome da maioria delas. Os tempos mudaram, a impessoalidade é enorme e a força dos tempos modernos nos massacra na faina diária do dia a dia que pede mais, sempre mais e cada vez mais, e a gente se deixa levar por este turbilhão de coisas, cai de cabeça no trabalho e vive para ele e para aquilo que ele nos dá, ainda que seja muito.
Parece que nunca é o bastante. Na minha casa temos várias televisões (na sala, no quarto do filho, no meu quarto, no quarto da sogra, na cozinha), quatro pontos de TV por assinatura, dois carros e mais isso e mais aquilo, e quase não temos mais amigos. Por quê? Porque vivo para ter tudo aquilo que disse anteriormente e mais um monte de outras coisa que não disse e quando sinto a solidão no meio do tudo, nas horas em que sozinho fico pensando, sinto uma saudade imensa dos tempos de criança e adolescente ou já adulto jovem, vivia lá na Parada e a gente não tinha quase nada, mas tínhamos uns aos outros.
Tínhamos o Sr. Heiz e a dona Truddy. O seu Guilherme da lojinha, o seu Oliveira da vendinha, o seu Pedro do empório, o Toninho da padaria da esquina ou o Adriano da padaria do ponto final, o seu André do Parada, o seu Abraão das cabras, o seu Felipe da imobiliária, o seu Macário da carroça. O meu pai era o seu Brasil Tenente, mas tinha também o seu Pedroso da Força Pública e o seu Mário da Guarda Civil, o Paulo da farmácia, o Dr. José médico e por aí vai. A gente conhecia as pessoas, a gente sabia quem elas eram e o que elas faziam e todas elas sabiam da gente e quem nós éramos. Não havia uma única alma lá na Parada que não soubesse que eu era o Marcão, filho do seu Brasil e da dona Jandyra.
Mas hoje, sabe-se lá como vai ficar, em que mundo meus netos viverão e meus filhos envelhecerão? Onde nos levará essa impessoalidade toda? Tomara que, como dizia Fernando Sabino, no fim tudo dê certo, mas e se não der?
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