Quase que eu trabalho lá. Eram os idos de 63, por aí. Eu trabalhava na agência McCann Erickson, prédio dos Diários Associados, na 7 de Abril, como assistente de arte.
Meu chefe foi convidado a ir para a Abril, mas tinha outros planos e indicou-me em seu lugar.
E toca a seguir os preceitos burocráticos, bem rigorosos, que já existiam mesmo sendo a editora uma insignificância, comparada à Abril de hoje. Para começar, ocupava alguns andares do acanhado prédio da R.João Adolfo, esquina da 9 de Julho. Bem ao sopé da encantadora Ladeira da Memória.
O prédio subsiste, ocupado não sei por quem, dada a decadência do lugar. Ao passo que a Abril de há muito ocupa monumentais edifícios, visíveis a muitos quilômetros, como potência gigantesca que virou.
Sigamos a rota bucrática.Eu tinha de fazer vários testes, a começar do temido psicotécnico. Pretextei uma gripe, não de todo falsa, pois para isto precisava faltar na agência. E assim mesmo tal fato quase me custou o emprego.
No teste havia um psicólogo que era um terror, verdadeiro sucessor
do inquisidor Torquemada. Soube de sua fama mais tarde, mas aí já havia sido examinado.Apesar de suas provocações, mantive a calma e passei.
Fiquei três dias na redação de 4 Rodas, fazendo testes para diagramador. Deram-me algumas matérias para paginar, coisa inteiramente nova para mim.
Mas no último dia em que lá estive, meu contato, o diretor Paulo Patarra, simplesmente havia desaparecido.
Não subiu aos céus, nesse terceiro dia, mas inadvertidamente havia arranjado outro emprego.
Aí meu posto já não fazia o menor sentido. Ninguém sabia quem eu era, e o que estava fazendo por lá. Nem eu mesmo, então meti o rabo entre as pernas, e voltei à velha Mc Cann. Bem a tempo.
Ainda assim conheci na Abril pessoas interessantes, que me seriam úteis no futuro.
Como o premiado repórter José Hamilton Ribeiro, mais tarde ferido no Vietnã, e um dos principais nomes da revista "Realidade". E um outro jovem diagramador, de sobrenome teutônico.
Seu verdadeiro nome era João, mas fazia questão de ser chamado "Hans". Quando vim a trabalhar com ele em outra agência, entendi melhor porquê.
Talvez assim se sentisse mais no Terceiro Reich, e era famoso por sua prepotência.
Mas era também um bom desenhista, e me respeitava, fazendo sua carreira, como eu, em função de seu talento artístico.
O velho Largo da Memória! Para mim, como para tantos outros, fez jus a seu nome.
Com seu anacrônico romantismo, e o fantasma de seu chafariz extinto, do qual ainda fluem filetes de boas recordações.