Dona Veridiana

Início de 1969 já estava morando em São Paulo (Rua Fortunato), formada recentemente, desfrutava das férias antes de pegar no batente (primeiro emprego). Conheci um garoto mais novo do que eu (o Zé), meu vizinho, que tornou-se meu amigo. Costumávamos andar por todo o bairro. Subíamos a Av. Angélica até a Paulista e voltávamos pela Consolação. Na altura da Rua Dona Antonia de Queiroz, entrávamos e descíamos a Rua Itambé. Na esquina da Av. Higienópolis com a Maria Antonia havia um casarão cercado por altos muros e grande portão que atraía a minha curiosidade. Perguntava se era residência de algum ricaço e me deram várias informações errôneas. Esse meu amigo mesmo, me dizia que era a residência de um homem solitário. Outros informavam que se tratava de um "barba azul", levando diversas mulheres pra lá pra bacanais. Soube, também, que se tratava de um clube só para homens e minha imaginação corria solta. "Só para homens? aí tem…"
Enfim, sempre que passava por lá tentava olhar pela fresta do portão e não conseguia ver nada. Vez por outra via entrar carro, mas nunca dava tempo de chegar no portão pra ver dentro. Soube, muitos anos, depois que tratava-se de um clube fechado. O Clube São Paulo.
O nome da rua já me intrigava: Dona Veridiana. Quem terá sido essa mulher, pra ter uma rua com seu nome? E a Angélica, quem terá sido?
Na época não tinha internet e essas perguntas se perderam. Hoje sei que existe livro com todas essas respostas e a internet ajuda muito. Como agora. Pesquisei e encontrei dados sobre a Dona Veridiana que hoje seriam banais.

Quando Veridiana completou 13 anos, seu pai, o Barão de Iguape, resolveu arrumar-lhe um marido. E a escolha recaiu sobre um daqueles meio-irmãos-primos, Martinho Prado, quatorze anos mais velho que a futura esposa. A união tornou assim o Barão de Iguape, sogro do seu primo meio-irmão e avô materno e tio paterno dos futuros filhos do casal. Não se sabe se a jovem Veridiana concordou ou não com o arranjo, mas a sua opinião evidentemente nada poderia influenciar, naquele momento, o desenrolar dos fatos. Quando, porém, os seus filhos chegaram à idade adulta, ela chocou a cidade com uma escandalosa decisão: resolvera separar-se e assumir a chefia da família. Esteve diversas vezes em Paris e, em 1884, de volta a São Paulo, mudou-se para um palacete, que ficou conhecido como Chácara Dona Veridiana. A Chácara tornou-se ponto de encontro de intelectuais, artistas, políticos e cientistas, sediando reuniões sociais e culturais, impulsionando debates políticos e literários. Dona Veridiana chegou a ser ameaçada de morte por seu estilo insubmisso ao papel tradicional das mulheres.

Não satisfeita, pesquisei sobre o Clube São Paulo e encontrei um artigo da Vejinha (10/4/02):

O Clube São Paulo, localizado entre as Ruas Martinico Prado e D. Veridiana, hoje bastante descaracterizado, ocupa a antiga residência da família Prado, construída em 1884. Conhecida como chácara Vila Maria, a mansão de D. Veridiana Valeria da Silva Prado, filha do barão de Iguape, foi um dos locais preferidos dos intelectuais e da elite paulistana para seus encontros e discussões. O Clube São Paulo, um dos mais tradicionais e elegantes da cidade, vem tirando o sono dos vizinhos. Espécie de oásis no meio de prédios residenciais, ele virou ponto concorrido para festas e eventos. Sua grande atração é um bosque com lagos e fontes, que ocupa mais da metade da área de cerca de 12.000 metros quadrados. O terreno é avaliado em 18 milhões de reais. Há ainda o palacete, onde funciona a sede. Pertenceu a Veridiana de Almeida Prado, mãe de Antônio da Silva Prado, prefeito da capital no começo do século XX. Em agosto do ano passado, todo o conjunto foi tombado pelo patrimônio histórico. O clube, fundado em 1959, inspirou-se nos congêneres de Londres, cujos sócios se reúnem em poltronas de couro e ambientes austeros para beber uísque, jogar cartas e conversar com privacidade. Mulheres só entram eventualmente, e sempre acompanhadas dos maridos.
No Clube São Paulo, o número de sócios caiu pela metade. Hoje são 567 contribuintes, dos quais muitos estão com as mensalidades atrasadas. Para equilibrar o caixa, há cerca de dois anos as instalações começaram a ser alugadas para acontecimentos sociais. Quem ficou no prejuízo foram os vizinhos, que se queixam do ruído e do congestionamento de carros até altas horas. "Sem a renda das festas vamos à falência e o imóvel irá virar um cortiço", diz Raul Pereira Barreto, um dos diretores do São Paulo. Diante das reclamações, o clube chegou a tomar algumas providências. O salão principal, por exemplo, recebeu um revestimento acústico. Mas, como é pequeno, abrigando no máximo 87 pessoas sentadas, as festas acabam acontecendo mesmo ao ar livre – e com muito barulho.

Seis representantes de moradores foram recebidos para uma reunião no velho solar de Higienópolis. "Dali saíram promessas de que não haverá mais festas fora do salão", conta Cássia Fellet, presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Pacaembu, Perdizes e Higienópolis. "Não sei se com isso os problemas se resolvem." A pendenga já teve desdobramentos. Depois de receber denúncias, no fim do ano passado, o Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru) chegou a cassar a licença do clube por ter excedido a lotação e estar funcionando como bufê. A Regional da Sé pediu, então, seu fechamento administrativo. O clube conseguiu uma liminar na Justiça para permanecer aberto. "Apenas os sócios e seus amigos podem fazer festas aqui", afirma Barreto. Não é bem assim. Em junho do ano passado, a H.Stern fez uma megarrecepção no local para lançar a coleção de jóias.

Tenho uma irmã que mora numa travessa da Rua Veridiana e sempre que vou visitá-la me lembro desse tempo em que andava despreocupadamente por essa rua. Bons tempos…