Ouvindo rádio em sampa – Capítulo 2

No início dos anos 1950, ouvir rádio era uma coisa gostosa. A televisão ainda estava por vir. Só em setembro é que ela foi ao ar, mas eram poucas as pessoas que tinham o aparelho. O rádio era aquele aparelho que transmitia a voz e que nossa imaginação dava o complemento.
Tinha as rádios novelas que tinha a preferência da rádio São Paulo, que fazia parte das emissoras unidas do grupo de Paulo Machado de Carvalho. A rádio cultura, também tinha suas novelas que em sua maioria eram escritas por Fernando Baleroni, marido de Laura Cardoso que também atuava. Más o forte da programação da rádio cultura, era o programa de calouros que ia ao ar aos sábados, das 14 até as 18 horas. Peneira Rodine, patrocinado pela Ródia. Este programa era apresentado por Hélio Araújo. Também o foto Leu era um dos patrocinadores, e uma maquina fotográfica era sorteada ao final de cada programa. Para tanto Helio Araújo gritava o programa todo. Olha a urna para a máquina fotográfica. Neste programa saiu o grande cantor Francisco Egidio. Diariamente a tarde tinha o programa seqüência das seis. Foi neste programa que surgiu o comediante Ronald Golias. Além desse programa Golias fazia parte dos aquas loucos, um grupo de nadadores que faziam misérias nas piscinas. A rádio América também era uma emissora bastante ouvida. A noite tinha o programa Cartório de Protestos, em que o cartorário ficava embaralhado, com o atrapalhado escrivão, que se encantava com as viúvas que iam fazer o atestado de óbito. Assim que a mulher saia ele gritava ao oficial maior. Viuuuuvaaa doutor!! Esse radialista se chamava Mario Guimarães.
Na rádio Tupi, tinha ao meio dia, A CADEIRA DE BARBEIRO, com Manoel de Nóbrega e Aloísio Silva Araújo. Nóbrega era o freguês, (doutor) e Aloísio o barbeiro (Fígaro). Havia um diálogo entre os dois, era mais uma crítica ao sistema político do país na época.
Barbeiro: Vai barba e cabelo?
Freguês: Não, só a barba.
Barbeiro: Sabe doto, a gente fica cabreiro com esse governo. O Dutra num fede e nem chêra.
Freguês: É verdade.
Barbeiro: Veja doto. Ele fechou o jogo, fico tudo desempregado.
Freguês: É verdade, fígaro.
Barbeiro: Entra, num dimora, vai lendo uma revistinha ai que a barba cresce. Dispois eu te faço ela, te faço…
Freguês: acho que no tempo do Getúlio era melhor.
Barbeiro: Com o DIP, e tudo doto?
Barbeiro: Entra que te faço uma permanente piriódica nesse papiloto te faço.
Freguês: Quem é ela?
Barbeiro: Passa toda tarde por aqui? Ainda pego ela, eu pego!
Barbeiro: Pronto ta feito a barba.
Freguês: quanto é?
Barbeiro: Oitocentos e cinqüenta milareze.
Deixa ver se tenho trocado.
Barbeiro: psiuuuu, não aceito passe!
Freguês: E você acha que eu ia pagar oitocentos e cinqüenta milareze, com passe? Hemmmm oitocentos e cinqüenta milareze, por uma barba ordinária dessa?
Não é pela barba. Sabe o Dutra, a inflação….