Quarto centenário da cidade de São Paulo

Quatro anos incompletos. Meus registros da memória podem olhar para o céu e dele ver jorrar uma chuva prateada de flâmulas, lançadas através dos voos rasantes das aeronaves que bailam no azul do céu.

Meus pais elegantemente trajados: meu irmão com seu terninho de linho azul claro, meu vestido de algodão todo branco, com bordados coloridos, que mamãe tão bem me enfeita, mãos dadas, orgulhosos, seguimos em meio ao ruflar dos tambores e da marcha, em passos largos, a marcar o compasso em quatro por quatro dos soldados na avenida.

Pela calçada caminhamos ao encontro de um bom lugar para apreciar todo aquele movimento alegre; eis que paramos bem ao pé de gigantesca obra de ferro, que meus poucos anos não me dão a entender seu significado, mas gosto.

Papai me diz que é o Viaduto Santa Ifigênia, cuja estrutura metálica fora toda montada na Bélgica e para cá trazida e inaugurada em 1913. Bem, um dia vou entender melhor, agora, encantada observo as pessoas sobre ele dependuradas. Do alto apreciam o marchar de jovens com seus uniformes aprumados, balizas que rodopiam bastões no ar, numa bela coreografia, cruzando toda a extensão da avenida, ante aplausos calorosos.

É o quarto centenário da cidade de São Paulo – 25 de janeiro de 1954 – e, em meio aquele barulho constante, cantarolo para mim mesma, baixinho: Oh, São Paulo! / Oh, São Paulo! /São Paulo Quatrocentão / Oh, São Paulo! / Oh, São Paulo! / Oh, meu São Paulo! Você é o meu torrão… Quem é que não sente emoção / Ao saber que também vai participar? / Da festa do meu São Paulo /Que para sempre hei de adorar… Oh, São Paulo!…

E eu estava ali, junto com meus pais e meu irmão, mãos dadas, felizes.

A voz de sua intérprete, Hebe Camargo, podia então ser ouvida através das emissoras de rádio, e eu facilmente decorava a letra; jornais e revistas convidavam às comemorações.

Fazendo parceria à marchinha, o acordeom de Mário Zan entoava nas rádios o dobrado "Quarto Centenário" que, anos após em minhas pesquisas, pude encontrar registros de que a composição em parceria com J. M. Alves vencera o concurso municipal da cidade de São Paulo, sagrando-se como hino oficial.

O tempo passava, o calor aumentava e a festa findava. Agora era o momento em que a multidão desfilava por entre calçadas, meio fio, atravessavam as ruas sem pressa, formavam filas intermináveis nos pontos de ônibus, nas lotações, buscavam as lanchonetes, os restaurantes e num deles lá estávamos nós, degustando uma saborosa feijoada.

Oh! São Paulo. Oh! São Paulo. Cinquenta e sete anos se passaram – 1954/2011 – mas você continua sendo meu torrão.

Oh! São Paulo… Oh! São Paulo. Já não é mais tão calma e serena. Eu há muito me transferi para seu interior, mas "para sempre hei de te adorar".

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