Sempre gostei muito de futebol. Na minha juventude fui torcedor e diretor de um dos times de futebol de maior torcida do bairro. O Vasco da Gama de Vila Bonilha, popularmente chamado de "Vasquinho".
Acompanhava o time em todos os jogos que eram realizados nos domingos à tarde. Eram verdadeiros clássicos da várzea. Jogos contra o Real Madrid, Comercial, Arsenal, Piqueri, Rio Verde, Moinho Velho, Flamengo (Franco da Rocha), Leão do Morro (Pinheiros) e muitos outros que nos meus 60 e tantos anos atuais já não me recordo mais.
Na verdade eu nunca me submeti do teste para ver meu potencial como jogador, eu achava que não dava para a coisa. Vontade eu tinha de vestir o uniforme do meu time de coração e jogar, mas me faltava coragem para tal. Não me via sendo xingado com palavras de baixo calão que iam ofender a minha querida mãezinha ou sendo chamado de perna de pau, acho que não ia ter estômago para tanto.
Mas eis que um dia… Minha chance chegou. Num feriado de 1º de maio, seria realizado o jogo de… Casados x Solteiros e eu, como diretor do time, me convoquei para jogar de "centro avante" do time dos solteiros. Para tanto, comprei até uma chuteira para usar no clássico.
O dia de glória chegou. Vesti o uniforme com aquele enorme nº. 9 nas costas e a cruz de malta no peito. Torcida animada para o jogo, fogos, gritaria, um glamour! Eu parecia o "Fenômeno" daquele dia.
O juiz dá início ao combate, eu corro para o meio da área adversária para receber a redonda. O goleiro dos casados, de nome Geraldão, um verdadeiro armário (jogador do 1º quadro do time principal), chega perto de mim e diz:
– Milton, lá fora somos amigos, verdadeiros irmãos, mas aqui dentro é guerra!
Mostrou aquela mão que mais parecia pata de elefante e disse:
– Se você entrar aqui na área para disputar alguma bola alta, vou te dar um murro que te arranco a cabeça fora.
Eu olhei para ele e vi os olhos vermelhos querendo saltar do rosto, uma espuma branca que saia pelos cantos da boca. Aí pensei: “Vou ficar fora da área”.
Assim, quando meu time atacava, os companheiros gritavam: "Cadê o Centro-Avante?", olhavam para todos os lados do campo e me encontravam conversando com o meu goleiro.
Dessa maneira, logo fui substituído e minha carreia promissora foi encerrada nesse jogo. Confesso que se não fosse tão medroso, poderia ter mostrado meu talento e ser vendido para a Europa. Mas o destino não quis, foi cruel para comigo.
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