Queria agradecer a todos os que leram e deixaram seu registro no relato anterior "Futebol Dente de Leite – Meninos eu vi". Fiquei muito emocionado ao ler os registros do Ministro, ex- SPFC; Cabeção, ex- Juventus, Marcão ex-Pinheiros, Paulinho ex-Nacional. Obrigado a vocês, em nome de todos os demais Dentes de Leite, pelas manhãs fantásticas que me proporcionaram.
Agradeço também ao leitor Abílio Macedo pela correção do lema do Dente de Leite que era "Craque de Bola, Craque na Escola" e "Bola no Pé, Livro na Mão". A memória está começando a falhar…
No texto anterior, acabei esquecendo de citar alguns nomes, principalmente do Nacional, que acabou sendo o campeão. Paulinho goleiro, Vinicius quarto zagueiro, Carlos Alberto lateral esquerdo, Piranha ponta direita, Serginho ponta esquerda, Tadeu centro avante.
O craque Waldemar Domingos, nosso querido Cabeção, ex-Juventus, deu uma valiosa contribuição citando mais alguns nomes de seus ex-colegas de time: Zé Luis, Walter, Wanderley, Nôno, Alberto e de alguns que jogaram na Portuguesa, como o Edson (depois foi profissional pelo Palmeiras), Tostão, Ivair, Pedrinho (ex-Palmeiras, Vasco e Seleção Brasileira) e Mardoni.
O Corinthians não disputou o primeiro campeonato, mas disputou o segundo com um time que foi base para o título de 71, o terceiro e um dos últimos campeonatos televisados, tendo em sua equipe entre outros o goleiro Décio (que mais tarde se transferiu para o Internacional de Porto Alegre), Moisés (irmão do Zé Maria), Donato, Nobre, Genildo, Lúcio, Luís Rosa e Luciano.
Na esteira do sucesso do I Campeonato Dente de Leite, surgiram um monte de outros campeonatos semelhantes e com igual sucesso.
O da TV Tupi teve ainda uma segunda edição de sucesso em 1970 (São Paulo campeão, reforçado de Manguinha, que veio de Bragança Paulista e depois fez sucesso no profissional do Guarani, Alceu e Fausto, respectivamente volante e quarto zagueiro emprestados pelo Santos e contando com um excelente zagueiro Ribas Estevam).
O Banespa manteve sua base com os jogadores de 1956 e foi reforçado por vários jogadores provenientes do Pirituba, como Adilson, quarto zagueiro e Amilcar lateral esquerdo, além dos gêmeos Marcio e Marcos, respectivamente lateral e zagueiro central. O meio de campo permaneceu com La Selva e Paulo Roberto, o craque do time. Paulo Roberto era um loirinho que chamava a atenção pela habilidade de sua perna canhota, e que deve ter feito uma coleção de bicicletas na época, pois este era o premio dado ao melhor em campo.
No embalo do I Campeonato, teve ainda um campeonato com a participação dos excluídos do II Campeonato, onde os nascidos em 1955 poderiam atuar. Nascia o Dentão. Salvo engano a decisão foi entre São Paulo (que ganhou este Campeonato) e o Juventus. Ainda em 1970, o DEFE (perdão pela memória, mas acho que a sigla significa Departamento de Educação Física do Estado ou algo parecido), comandado pelo Prof. José Astolphi, organizou outros campeonatos, sendo um para a categoria Dente de Leite e outro para a categoria Dentão, para onde migrou a maioria dos atletas que disputaram os dois primeiros campeonatos da TV Tupi. A Volkswagen em SBC promoveu, em meados de 70, seu campeonato dente de leite também, que foi ganho pelo Banespa, com alguns reforços do Clube Atlético Juventus, entre eles Berto – centro avante – e Cabeção goleiro.
O Clube Atlético Indiano também promoveu o seu campeonato, ganho pelo Ypiranga, sendo que deste campeonato só participavam clubes sociais (Indiano, Banespa, Círculo Militar, Ipê, Pinheiros, Ypiranga, entre outros).
Fazendo um pequeno parêntesis, como tinha também um campeonato dente de leite no Rio de Janeiro, houve uma série de confrontos entre os times paulistas e os times cariocas. Estes jogos antecederam ao que veio ser o I Rio X SP Dente de Leite. Recordo-me bem de dois destes jogos, pois estava de férias na casa de meus avós e quando fiquei sabendo fui assistir aos jogos no campo do Flamengo na Gávea.
Assisti sob um sol escaldante nas escadarias do campo do campo do Flamengo e único torcedor paulista presente a Banespa e Pavunense e Matarazzo e Fluminense. No time da Pavunense se destacaram dois jogadores que, anos mais tarde, foram para o Juvenil do Santos FC. Um era Babá, meio-atacante baixinho de chute mortal, excelente nas cobranças de faltas e um zagueiro central de nome Lazinho. No Fluminense, tinha um zagueiro alto e careca que impressionava pela habilidade que possuía em sua perna canhota. Mais tarde, este garoto ganhou destaque no time profissional chegando a Seleção Brasileira, tendo disputado as copas de 1978 e 1982 com o nome de Edinho, quarto zagueiro e lateral esquerdo.
No Rio, a versão paulista do Murici atendia pelo nome de Adílio, meia do Flamengo e que fez enorme sucesso no time que tinha Zico e Junior como grandes astros. Adílio, para um dos idealizadores do Dente de Leite, Roberto Petri, foi o maior jogador na categoria dente de leite que ele viu jogar. Eu prefiro ficar com Murici, mas respeito a opinião do grande mestre Roberto Petri.
Ainda sobre os times cariocas, me chamava a atenção um goleiro de nome Ronaldo, que jogava no Olaria e além de bom goleiro, foi o primeiro que vi usar camisas de mangas curtas. Infelizmente, este não vingou como jogador profissional.
Voltando ao campeonato do DEFE, este era um campeonato longo, com várias fases eliminatórias, muitos times de SP e do interior e era o que fazia a festa da molecada. Principalmente daquela que não tinha tido a oportunidade de jogar nos campeonatos da TV Tupi.
Além dos times tradicionais, surgiram várias equipes de excelente nível técnico, como o Santo Amaro, que viria a ser a grande pedra no caminho do Dentão do SPFC, sendo o único time a ganhar do São Paulo em duas oportunidades. O Santo Amaro era na ocasião, um reduto de grandes craques mirins. O time de salão era espetacular: Mateus, Toninho, Ziri ou Paulo Rogério, Foca e China.
Sob o comando do triunvirato Eliseu, Bicudo e Jacaré, passaram jogadores que despontaram em muitas outras equipes. Luiz Carlos Ziri, (chegou ao profissional do SPFC) era um deles, devido à sua habilidade, era um excepcional jogador de futebol de salão e às vezes jogava futebol de campo ao lado de outro monstro, Foca (mais tarde conhecido como Viana).
Tinha ainda Alcides que, mais tarde, jogou no Banespa e no SPFC, Alemão, apelido de Valdevino, lateral esquerdo que jogou no juvenil do Palmeiras e de quem Pedrinho lateral esquerdo que fez sucesso no time profissional do Vasco da Gama, mas começou jogando no dente de leite da Portuguesa, foi reserva.
No Santo Amaro, jogaram ainda Belmiro, bom/médio volante, e mais os goleiros Mateus, Serginho (que jogou depois no Inter de Limeira e na Portuguesa de Desportos) e, anos mais tarde, Moreira que foi reserva do Mateus, do Serginho e do Barbirotto no SPFC e depois fez carreira no Coritiba. Zizinho, que jogou no SPFC e depois migrou para o México onde reside até hoje. Seu filho é jogador da seleção mexicana.
Ainda na zona sul, tínhamos o Noroeste do Jardim São Luiz, que tinha Adilson, como um de seus expoentes e também o Corintinha onde jogava um negro forte conhecido como Betana. Na Chácara Santo Antonio tinha o Floriano que entre outros revelou Paulinho das Arábias, mais tarde jogou no Nacional e também Zé Antonio, um ponta-esquerda não muito rápido, porém era habilidoso e dono de um chute potente.
No ABC tinha o Meninos FC do Rudge Ramos, que deu ao mundo do futebol um excelente goleiro Gilmar que depois defendeu o Corinthians Paulista, aonde chegou ao profissional, e Serginho, um centro-avante alto e espigado, responsável pela descoberta de Milton Cruz, atualmente auxiliar técnico do SPFC. Serginho foi um dos muitos que preferiu largar a bola e se concentrar nos estudos, hoje é um respeitável médico no ABC, local onde sempre residiu.
Na Lapa, tinha o Lapefer, um time que representava uma fábrica de ferragens, e tinha também o Santa Marina. Um pouco mais adiante, tinha o Pirituba do saudoso técnico Garrincha, uma espécie de João Avelino dos futebol de base. O Pirituba que havia cedido vários jogadores para o campeão Nacional, tinha em suas fileiras, um goleiro de nome Pracidelis, nada mais que o treinador de goleiro da S.E. Palmeiras, Carlos Pracidelis. Do interior, me lembro bem de um time de Limeira, o Independente, cujo grande azar era sempre cruzar com o SPFC nas oitavas ou quarta de finais.
Aproveitando a estrutura que tinha, o SPFC ganhou o campeonato da TV Tupi e o I campeonato do DEFE, ambos na categoria Dentão. Sob o comando de José Douglas Dallora, que anos mais tarde chegou a ser presidente do SPFC e também de Carlos Caboclo, o SPFC recrutou para suas bases, diversos craques mirins que surgiram em outras equipes.
Migraram para as bandas do Morumbi, entre outros os seguintes jogadores: Mug (que pouco antes chegou a treinar no Santos na ocasião), Armandinho e Alberto provenientes do Ipiranga; Foca/Viana, Edu e Serginho (goleiro) do Santo Amaro; Marcelo Vella e Fernando do Pinheiros; Mosca do Matarazzo; Mateus, Paulo Sergio e Alcides do Banespa; Marco Antonio Patrão do Clube Aquático do Bosque, Jorge Denis do Vasquinho da Casa Verde, Serginho (centro-avante) do Meninos de Rudge Ramos, Tostão do São Vitor do Brás, Esquerdinha, que era do Juventus e ficou pouco tempo lá pelos lados do Morumbi e foi para a Portuguesa de Desportos, onde fez brilhante carreira até o time profissional. Vinicius, quarto zagueiro do Nacional, e outros que no momento não me recordo.
Estes foram alguns que foram jogar no tricolor do Morumbi, agregando valor a excelente base que lá já existia, acrescida dos jogadores que passaram nas peneiras, casos de Paraguaio, João Osório, Osvaldinho entre outros.
Inicialmente existiam duas categorias de Dentão: os nascidos em 55 e os nascidos em 56. Os de 55, logo após o primeiro Dentão do DEFE, onde foram campeões, foram promovidos para a equipe juvenil. Os de 56 chegaram a disputar dois campeonatos se sagrando bicampeões. Como tinham ganhado quatro campeonatos, os de 55 ganharam um Dentão (70) pela TV Tupi e um DEFE (71), que era jogado aos sábados à tarde; e os de 56 ganharam dois DEFE (71 e 72); estes meninos foram homenageados por nada mais nada menos do que Hebe Camargo num programa que era gravado na Rua Augusta e passava na antiga TV Record.
A categoria de 56, disputou as duas finais no Parque São Jorge, saindo-se vencedora nas duas ocasiões. Por uma destas ironias da vida, o primeiro jogo do Dentão de 56 do SPFC foi justamente contra o Corinthians num domingo à tarde dia 20/04/71, no campo do Macabi lá na Cantareira, e o placar do jogo foi 1×0.
Ao longo deste período de praticamente três anos, o time do Parque São Jorge foi vítima contumaz da chamada Máquina Tricolor, a ponto de num final de semana, depois de perder num sábado pelo Campeonato Juvenil (um a zero SPFC, gol de Valtinho, resultado este que deu o título para o Palmeiras) e, num domingo pela Semi-Final do Dentão, o técnico do Corinthians, Luiz Moraes, popular Cabeção, ex-goleiro e reserva de Gilmar dos Santos Neves, desabafar para quem estivesse perto (eu era um dos que estavam): "Chega, eu não aguento mais perder para este time". Pelo menos mais dois anos ele teve que se contentar em perder.
Os jornais da época, A Gazeta Esportiva e o Diário Popular, nas suas páginas de esportes, sempre faziam alusão a esta equipe do SPFC como A Máquina de Fazer Gols ou a Máquina de Jogar Futebol. Realmente aqueles garotos, para a categoria, eram simplesmente sensacionais. Estas reportagens costumavam sair às terças-feiras.
Considerando o Dentão de 56, aquele time do SPFC teve, em dois anos de existência, apenas três derrotas, sendo duas delas para o Santo Amaro e uma para o Lapefer, onde o goleiro do Lapefer só não fez chover de tanto que catou naquele dia.
O Santo Amaro, além de um bom time, tinha uma "raposa" no reserva, chamada Eliseu. Eliseu era o técnico do Santo Amaro e, com a colaboração dos irmãos Bicudo e Jacaré, arrumava verdadeiras armadilhas para o time do tricolor do Morumbi. Como a maioria dos jogadores do Santo Amaro era muito habilidosa, eles armavam o time com até oito jogadores de meio-campo, fazendo o jogo cadenciar ao máximo e explorando as falhas do SPFC, que tinha uma vocação extraordinária para atacar.
E, por duas vezes, nestes encontros, o Santo Amaro fez um a zero e se trancou na defesa e ficou tocando bola, que era seu forte, fazendo o tempo passar. Quando a retranca era vencida, a bola invariavelmente parava nas mãos do goleiro Zé Carlos. Zé Carlos era baixo para a posição, mas tinha um senso de colocação muito bom.
Entre o campeonato de 1971 e o campeonato de 1972, como prêmio por ter vencido o campeonato, o Dentão de 56 excursionou pelo sul do país e Argentina. Junto com a equipe do Dentão, viajou o time Dente de Leite que também tinha sido campeão do DEFE, em sua categoria. Daquele time me recordo do goleiro Zanforlin, do ponta-esquerda Jacaré, do meia Flavinho, do ponta direita Jorge Caju e do meia Bona e do centro-avante Pastel.
O Dentão no Paraná enfrentou e venceu o então Pinheiros, um dos clubes que deram origem ao atual Paraná Clube, cujo ponta-direita era Nilton Batata, que mais tarde brilhou no Santos Campeão Paulista de 1978, primeira edição dos Meninos da Vila. Na Argentina, em Almagro/Buenos Aires, na velha cancha do Gasômetro enfrentou num sábado à tarde, o San Lorenzo, campeão metropolitano da categoria juvenil, portanto mais velhos do que os jogadores do SPFC e que meses antes tinham ganhado do juvenil do Fluminense no Rio de Janeiro, num jogo também amistoso.
A princípio, o jogo quase não se realiza, pois a diferença de idade era flagrante; mas depois de um acerto, o jogo se desenrolou normal. O primeiro tempo deste jogo virou 2×0 para o San Lorenzo, e só não terminou mais porque o goleiro Mateus teve uma atuação esplendorosa, a ponto de merecer elogios do treinador rival, e não deixou o placar ficar mais dilatado. No segundo tempo, entraram em campo Jorge Denis e Marco Antonio Patrão e o SPFC reagiu e virou o jogo para 3×2 com uma atuação de gala do meia Colonese que desequilibrou o jogo. Um jogo sensacional que deixou os argentinos atônitos com a capacidade de reação do time brasileiro. Aquele time tinha vocação para atacar o tempo todo.
No dia seguinte, o jogo foi num dos muitos campos na Universidade de Buenos Aires, equivalente à nossa USP, e o jogo foi um a zero para o SPFC, gol de Valtinho, após excelente jogada de Paulo Sergio que cruzou da esquerda. Este jogo quase não chega ao seu final, devido à uma briga ocorrida em função de uma dura entrada do zagueiro Vinicius num atacante adversário.
O time base de 71 era: Mateus, Ronaldo, Chiquinho, Vinicius e Vlamir, Tostão, Jorge Denis e Foca, Valtinho, Colonese e Paulo Sérgio. O time de 72 já era formado por Mateus, Ronaldo, Paraguaio, Vlamir e Vinicius, Jorge Denis, Colonese e Foca, Valtinho, Marco Antonio Patrão e Paulo Sergio. Em tempo, o Foca aqui citado é mesmo Viana, que depois se tornaria campeão brasileiro em 77.
Bem, por ora é só. Eu volto em breve para contar mais algumas histórias sobre este incrível time e de como ele virou a base para o titulo de 1973, onde o SPFC se sagrou o primeiro campeão do Juvenil C, promovido pela Federação Paulista de Futebol e categoria equivalente hoje ao Sub-17.
E-mail: [email protected]