11 de agosto de 1955. Os estudantes saíram às 8h da noite e se reuniram defronte do Instituto de Educação Caetano de Campos, na velha Praça da República, cujo objetivo era a comemoração do “pindura”, tradicional festa dos estudantes dos cursos de direito de São Paulo e do Brasil. Os caetanistas, nada tinha a ver com os cursos jurídicos, porém, estavam decididos a participar das comemorações estudantis, visitando os principais bares e restaurantes da região, do centro novo de São Paulo, como os da Avenida Ipiranga, Avenida São João, desde o cine Metro, até as confluências do Largo do Paissandú, subindo pela Conselheiro Crispiniano, atravessando o Theatro Municipal, depois, indo pela Rua Xavier de Toledo, virando à direita na Rua Sete de Abril, caminhando no entorno da Praça Dom José de Barros, Rua Marconi e na bifurcação com a Rua Bráulio Gomes, quase defronte da Biblioteca Municipal Mário de Andrade.
Era, portanto, uma comemoração diferente do tradicional “pindura,” onde os legítimos estudantes dos cursos de direito, iam de bar em bar, de restaurante a restaurante, em busca de alguma aventura, como se fartar e comer de graça, passando o chamado “trote” nos comerciantes da região, geralmente pelo centro velho de São Paulo, junto e nas proximidades do Largo de São Francisco, Rua São Bento, onde havia algumas chocolatarias e leiterias, Rua José Bonifácio, Rua do Ouvidor, Rua Direita e Rua da Quitanda, ambas, saindo da Praça do Patriarca, indo até a velha Praça da Sé.
Aquele grupo que tinha saído do Instituto de Educação Caetano de Campos, na Praça da República, não tinha nada a ver com os verdadeiros estudantes dos cursos de direito do Largo de São Francisco. Havia entre os alunos do curso ginasial noturno, aproximadamente, uns 150 estudantes que resolveram comer e beber de graça, aplicando o velho trote do “pindura” e sair dos bares e restaurantes sem pagar a conta, até que a polícia fosse chamada. Lembro-me que eu também estava participando daquela aventura; eu tinha na ocasião 17 anos de idade e estava com toda a juventude explodindo em minhas veias. Outros amigos e companheiros de Caetano de Campos, como o Zé Maria, presidente da comissão de formatura (1955) (vulgo cavalo de Tróia), o Arnaldo (senador), o Zé Janeiro (o fanfarrão), Ivan (Fragelo de Deus), Rafael (Zé Bonitinho), o Kubala (piloto de teco-teco), Luiz Vergueiro (o borrão de tinteiro) e tantos outros que, agora, passados 58 anos, não mais me acodem à memória.
Gostosura era descer a ladeira da Avenida São João, no centro da Cinelândia de São Paulo, entrar na confeitaria Ayrosa, ao lado do luxuoso Cine Art-Palácio, e pedir várias redondas de pizzas e tomar o espumante chope gelado e sair, é claro, sem pagar a conta. Palmas saudavam aos intrusos, falsos estudantes de direito, na chegada à padaria do Ayrosa. Moças comiam a tradicional pizza de mussarela, sentadas nas mesinhas colocadas ao lado do pequeno balcão.
O comerciante parecia assustado com o volume de estudantes na porta do estabelecimento comercial. Ficou na dúvida se chamaria, ou não, a polícia. Resolveu, então, oferecer gentilmente um cafezinho requentado aos “pinduras” de plantão. O oferecimento foi aceito de muito bom grado, e depois, a turba em massa compacta, se dirigiu ao Ponto Chic, no Largo do Paissandú, onde a cena se repetiu novamente, e o proprietário, gentilmente, ofereceu um café em xícaras pequenas aos estudantes. Sobre gritos de comando, foram, depois, até a Rua dos Timbíras, na altura da confluência da Avenida São João, no bar e café Mocambo. O estabelecimento era especializado na cultura do café espumante expresso, tirado em máquinas especiais italianas. Ali foi o máximo na ingestão de cafeína. Somado os bares e restaurantes visitados pela turba de estudantes caetanistas, foram consumidos quase um litro e meio de pura cafeína. A cafeína, associada à tensão nervosa, devido à ameaça da chamada da polícia pelos comerciantes, fizeram um efeito deletério sobre o sistema nervoso.
Houve um disparo no coração, seguido de intensa falta de ar, uma hiperventilação pulmonar, seguida de um aumento da frequência cardíaca e a boca ressecada com a língua revirando dentro dela. Uma compressão estranha no peito se assemelhava a um enfarte do miocárdio; um formigamento das extremidades dos dedos, com uma contração dos músculos dos braços era uma constante; uma sensação estranha de morte eminente tinha tomado conta de todo o corpo. – “O que seria aquilo?” No momento não conseguia raciocinar, não tinha como responder a indagação do guarda civil. Havia uma ansiedade, um intenso medo, um mal-estar com sintomas físicos e cognitivos, que tinham alcançado o ápice máximo. Efetivamente, naquele momento, não tinha condições de raciocinar, porque, o pânico havia se instalado na mente.
O guarda civil de plantão, sempre atento aos acontecimentos na Rua Sete de Abril, parou um táxi e mandou o chofer levá-lo ao pronto socorro municipal, que ficava, na ocasião, na Rua Roberto Simonsen, junto ao Pátio do Colégio, na antiga casa da Marquesa de Santos. Era inacreditável, naquele momento, havia cinco médicos de plantão, todos sentados em cadeiras de palhinha conversando animadamente, porque, o Pronto Socorro não tinha nenhum movimento naquela hora da noite. Esse era a São Paulo de outrora.
– “O que aconteceu.” Perguntou um dos médicos que viera ao seu encontro.
– “Não sei doutor! Acho que vou morrer! Não consigo nem falar.”
– “Calma! Conte-me o que está sentindo.”
Depois de dizer do sucedido, de ter participado do “pindura", de ter ingerido várias xícaras de café forte, aquela sensação de pânico, de um medo irracional, tinha tomado conta do corpo.
– “Você está com o sistema nervoso esgotado. Vou dar-lhe uma injeção e isso logo passará.”
Será que o médico não estava enganado? Nervoso eu? Nunca tinha tido nada.
– “Foi o excesso de cafeína que você tomou que produziu esse estado de ansiedade. Os sintomas são como uma preparação do corpo para a fuga depois de uma ameaça real, no seu caso especifico, a preocupação com a polícia. O excesso de adrenalina provocado pela cafeína provocaram alterações fisiológicas, como o aumento da frequência cardíaca e a hiperventilação pulmonar e o consequente ressecamento da boca.”
A receita veio logo a seguir. “Magnus Sedans” uma ampola de magnésio de 10ml por dez dias na veia para estabilizar a hipocalcemia. Enquanto ele falava, o efeito do tranquilizante já começava a se manifestar. Que susto! Pindura, cafeína e pânico nunca mais.