Em 1979, adolescente, ainda procedente do nordeste, caí de paraquedas justo no coração do bairro oriental. Ignorava, portanto, o significado da expressão choque cultural. Embora não fosse a minha primeira vez, o meu primeiro “alumbramento”, como diria o poeta Bandeira. Pois de forma parecida já cumprira anteriormente, e sem problemas, a transição da cultura nordestina sertaneja e medieval do meu Ceará natal para a cultura negra de origem africana da Bahia, onde morei por cinco anos.
Só que desta vez, ao desembarcar na rodoviária do Glicério e andar pela primeira vez pelas ruas que conduziam à Praça da Liberdade, eu tinha mais que a impressão, a certeza de que dera a volta ao mundo sem precisar contorná-lo. E esta sensação de estar em uma terra estrangeira se acentuou mais ainda no meu primeiro dia de aula na EEPSG Presidente Roosevelt, na ladeira da Rua São Joaquim, número 320, bairro da Liberdade.
Na classe onde eu iria cursar o primeiro ano do colegial (e também nas demais classes nos diversos turnos), calculei em 80 a 90% o número de alunos de origem oriental. Uma imagem que representasse esta insólita situação e o estado em que me encontrava, seria um par de grandes olhos de animal assustado em um mar de olhos pequenos, puxados.
É claro que eu me sentia totalmente deslocado. Imaginem-se no meu lugar.
Mas toda aquela estranheza, apreensão e solidão dos primeiros dias, graças a Deus, logo se dissiparam. Fui me adaptando, me soltando, me enturmando. Não demorou e descobri que eu era o “Gaijin*” da turma (sempre tinha um). E assim o contato com as gentes do oriente foi me enriquecendo culturalmente. Se eu não conhecia o mundo, o mundo vinha gentilmente a mim, transformando o modo com que eu o via, ampliando meus limitados horizontes.
Passei no Roosevelt parte da minha adolescência e juventude. Os orientais, logo descobri, eram conhecidos pelo esforço, a dedicação, a inteligência. Entravam nas melhores faculdades, sempre nos primeiros lugares. Eram tempos em que entre os vestibulandos reinava um provérbio: “enquanto você está aí morgando (ficar à toa, sem fazer absolutamente nada), um japonês tá pegando a tua vaga”
No velho Roosevelt de Guilherme Arantes e Lourenço Diaféria, de Marilena Chauí e José Serra, tive a minha cota de jogos memoráveis, de bailes, namoricos e algumas confusões… Tudo que se tem direito nesta fase feliz da vida.
Sair de lá, confesso, não foi nada fácil. Repeti o último ano, não apenas por desleixo (o que ia fazer se saísse do colégio?), mas porque não me agradava sair. E mesmo depois de cumprido o curso, por cerca de dois ou três anos, antes de partir para vida, continuei a frequentar o velho Roosevelt.
Ficou entre aquelas paredes, no pátio, na cantina, pelos corredores, o fantasma das minhas lembranças das aulas, dos campeonatos, dos mestres, dos amigos, de um tempo que, ao contrário da saudade, não retrocede jamais.