Desde a minha infância, ouvia as doces lembranças da minha avó. Uma delas era sobre os passeios à Sears, bem ali, na entradinha da Avenida Paulista. Eu a ouvia com atenção e ela sempre tinha um bom sorriso, ao contar que passeava por ali com o meu avô, a minha mãe e a neta mais velha, a Suzi, quando moravam na Rua Abílio Soares, ali mesmo no Paraíso.
As lembranças eram sempre tão prazerosas que, desde então, me apaixonei por aquele lugar.
Quando vinham as primas do interior para um passeio em São Paulo, ficando hospedadas na nossa casa, não tinha jeito: aos sábados à noite, tomávamos o ônibus em direção à Avenida Paulista e nos dirigíamos ao local, que se destacava pelos dizeres "satisfação garantida ou seu dinheiro de volta". Era uma delícia! Olhávamos tudo, todos os departamentos com muita curiosidade e respeito. É sim, a Sears nos dava uma dimensão de respeito; afinal, a minha avó freqüentava aquele lugar.
O dinheiro era sempre muito curto, mas nada disso nos aborrecia. Aquele lugar me remetia a um tempo mais distante, com idealismo romântico, muito reconfortante e bom, em que não se falava em medo, mas falava-se em andar de bonde, abrir espaços, ter esperança. Era época de recordações com os tios, lembranças de propagandas antigas, como "Dura lex sede lex, no cabelo só gumex". Tempo em que o meu tio Dante usava Quina Petróleo (Juvênia – Petróleo Quinado) para evitar a queda de cabelo… Mas o cabelo caiu do mesmo jeito.
Eu estava prestes a me casar e ganhei um dinheiro de presente de um dos padrinhos, amigo do meu pai de longa data. Esse amigo era de um sorriso largo e encantador, muito divertido, sempre solícito e muito pronto para atender, quando das terríveis dores de estômago do meu pai. Eu sou eternamente grata a ele, não pelo dinheiro, mas pela serenidade com que abraçou a mim e ao meu irmão, quando de uma das internações do meu pai, na Beneficência Portuguesa. Ele que nos levou até lá para uma visita e saiu abraçado conosco, sorrindo e tentando nos dar algum alento. Então foi o padrinho certo, inesquecível e muito companheiro.
Mas então, os noivos ganharam um dinheiro, e fomos até a Sears comprar o nosso guarda-roupa. Claro, não dava para comprar um dormitório inteiro. Mas eu fiquei tão contente! Um móvel claro, com três gavetas, espelho, muito elegante e que hoje está no quarto do meu filho, inteiro, marcando presença o carinho do amigo da família e da Sears, com toda a simpatia e inteireza.
E assim passeávamos. A última vez que a minha avó esteve ali, com a minha mãe, aproveitou e comprou para mim um recipiente de um plástico muito bonito, e que era uma espécie de guarda-bolachas. Até hoje o tenho guardado, depois de muito uso. A vó me deu o presente com muito sorriso, achando lindo. Já casada, um dia passei por ali sozinha e comprei uma escovinha de cabelo para bebês – comprei azul. Eu pensava: “Quando o meu Vinícius nascer, já tenho uma escovinha comprada na Sears.”.
Acredito ser dispensável dizer que a escovinha está guardada ainda hoje, juntamente com o pacotinho verde da loja. O meu Vinícius nasceu depois de uns quatro anos da compra. Ainda bem, pois a Sears acabou virando Shopping Paulista. Eu me nego a entrar ali. Tiraram o lugar que a minha avó, o avô, orgulhosos pela neta, passeavam, num tempo em que nem se falava em lazer. Era o único lugar onde minha avó poderia descansar, depois de tanto trabalho que ela tinha, na pensão da Rua Abílio Soares.
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