Meu cunhado era paranaense de São José dos Pinhais (Grande Curitiba), mas ainda menino veio para São Paulo. Seu pai era escrevente de um grande cartório na Rua Quintino Bocaiúva, no centro de São Paulo, e lhe proporcionou educação em boas escolas.
Formou-se em Direito e Ciências Econômicas, mas não exerceu nenhuma das profissões. Entrou no ramo de móveis e ganhou muito dinheiro vendendo e fabricando cadeiras, mesas e escrivaninhas.
Maurício, esse era seu nome, detestava São Paulo e os paulistas: povo frio, pouco acolhedor, arrogante etc. etc. "Quebramos o pau" muitas vezes por causa de suas opiniões preconceituosas.
Viajava muito para o Rio de Janeiro. Lá namorou, casou e acabou – velho sonho – mudando-se para a Cidade Maravilhosa. Gente boa, dizia, amiga, hospitaleira, alegre. Adorava o Rio, mas para seu castigo, passou a ser chamado de "Paulista".
Os negócios não iam bem, passou por uma fase difícil e acabou voltando para São Paulo. Reergue-se financeiramente trabalhando numa empresa que fazia leilões em todo o país. Aqui, cheio de esses e erres, ficou conhecido como "Carioca". Simpático, bom de papo, bom de samba e de copo, conquistou muitas amizades.
Os anos se passaram, Maurício amadureceu e, já "sessentão", numa confidência inesperada e motivo deste relato, disse-me que aprendera a amar a Paulicéia.
– Cunhado, o tempo transforma as pessoas. Sou muito grato a esta terra por tudo que me proporcionou. Aprendi que conquistar a amizade dos paulistas não é tarefa fácil, mas quando você adquire sua confiança é pra valer. São leais, sinceros e solidários, pessoas com as quais você pode contar e confiar. Como você sabe, continuou, ainda viajo com frequência para o Rio, onde moram os familiares de minha mulher, e hoje, caro cunhado, sinto um imenso prazer quando me chamam de "Paulista". Fico muito orgulhoso e espero que São Paulo seja minha última morada.
Dois anos depois dessa conversa reveladora e surpreendente, foi diagnosticado um tumor no seu cérebro. Submetido a delicada intervenção, morreu na mesa de cirurgia.
Com ele se foi o humor e a descontração do "Carioca" e o dinamismo e a capacidade de trabalho do "Paulista".
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