Outro dia, convocado pelo setor de jornalismo da Rede Globo para uma entrevista sobre meus textos de memórias de São Paulo, fui ao encontro da equipe jornalística para uma gravação na Rua 13 de Maio, tendo como ponto base a Igreja de N. Sra. de Achiropita.
Era uma sexta-feira, com tempo de folga fui andando do centro da cidade para lá e curtindo as lembranças que chegavam aos borbotões. Viaduto Major Quedinho, Rua Major Diogo parei em frente ao número 307, palco da minha mocidade, o coração ficou apertadinho, olhei a frente do TBC, hoje totalmente modificada, e me lembrei da antiga fachada.
Segui em frente, dobrei à direita na Rua Manoel Dutra, fui lembrando quantas vezes eu subi e desci aquelas calçadas de dia, de noite, ou mesmo de madrugada. Lembrei do grande incêndio no Posto de Gasolina que existia na esquina da Rua Manoel Dutra com a Rua João Passalaqua, lembrei da casa do meu amigo Aluízio, que era bem defronte o citado Posto de Gasolina e, lógico, do velho Honório, seu pai, que passava horas jogando conosco uma partida de buraco ou uma cacheta.
Quase na esquina da Treze de Maio me lembrei da doceria da Dona Gertrudes, que ficava ao lado da Cantina do Natalino.
Enfim, entrei na Rua Treze de Maio e ao longe avistei a Igreja da Padroeira do Bixiga, Nossa Senhora de Achiropita e, então, veio a visão das procissões que presenciei por ali. Eram bonitas e muito cultuadas. Os moradores, nas ruas por onde a Procissão passava, em respeitosa devoção, abriam, nas janelas de suas casas, lindas e finíssimas colchas e seguiam a tradição dos povos da Itália.
Assim, as ruas transformavam-se em multicoloridas telas jamais pintadas por mais célebre artista.
Na passagem do séquito religioso, o Pároco por debaixo de um andor abençoava a todos e borrifava água benta naqueles adereços ornamentais que, devidamente bentos, eram guardados pelas donas da casa para somente voltarem às janelas na outra procissão.
Subi a ladeira em busca da Igreja, vi a casa onde morou meu amigo e um dos Duques de Piu-Piu, o Roberto Romano. Mais à frente, onde hoje está instalada uma tapeçaria, me lembrei que era o Bar do Pachá.
Esse bar, para se dar uma definição completa, era onde ficava um "louco" por detrás do balcão, servindo vários loucos que ficavam à frente desse mesmo balcão.
Ali, entre as coisas normais que eram oferecidas para venda, tínhamos outras coisas bastante especiais. O "churrasco passado a ferro", por exemplo, era um bife literalmente passado a ferro elétrico de engomar, e depois servido como sanduíche em pão francês. Tinha também a Joana D´Arc no Álcool, que era uma porção de linguiça calabresa jogada diretamente numa tigela cheia de álcool. O fogo era ateado e, quando o combustível se apagava, a linguiça era servida no prato com pequenas fatias de pão para servir de tira gosto pra cachaça ou pra cerveja.
Falando em cachaça, o Pacha tinha um pote de vidro em que ele ia adicionando sobras das garrafas de pinga, conhaque, vinho e demais destilados. Além dos líquidos eram acrescentados dentes de alho, cabeças de cebola, pedaços de limão, cascas de ovos e muitas outras coisinhas, tinha, inclusive, uma cobra coral. A bebida resultante era chamada de "Cachaça de louco", e só mesmo louco a bebia.
O Pachá chegava a oferecer pagamento a quem tivesse coragem de tomar apenas um golinho daquela etílica. Só vi um doido bebê-la, era o Rubens Louco, que se lhe oferecessem uma dose bebia e saía dando coices pelas portas de ferro do bairro.
Nos fundos desse bar, morou um de meus maiores amigos. A família Pacces morou ali e, entre ela, o meu dileto Raphael Pacces Neto (Faeto para os íntimos).
Muitas outras coisas me lembrei durante essa incursão, mas ficarão para novos textos.
Agora preciso curtir a minha saudade.
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