Parte do livro "Minha Memória… Minhas Histórias"

Nasci no bairro do Brás, divisa com a Mooca, nas cercanias do centro da cidade de São Paulo. Na Rua Visconde de Parnaíba, em que coloquei pela primeira vez os pés, após apreender a andar, deixando de engatinhar. Agora observo as vastas zonas da memória onde descansa o tesouro das imagens de meu passado vivido nessa rua, e vejo:
Ousei ir até o portão, e a rua me pareceu sem limites, cheia de particularidades, segredos e fronteiras. Continuei toda a minha infância indo e vindo, no decorrer do tempo, cada vez mais longe, até a primeira esquina, que no início me parecia tão distante, depois foi ficando cada vez mais perto. A cada metro da rua que eu conquistava, me deparava com certos tipos de casas (algumas com porões), pessoas, gestos, rostos, dialetos, trajes, vozes, cores, portões, plantas, comércio, bares, depósitos, lojas e vendedores, pois quase tudo que consumíamos era entregue nas casas.
Não havia idéia de bairro ou de grupo social, de diferenças ou de diversidades, nada, apenas observava e gravava em minha mente as impressões imediatas e superficiais daquele pequeno universo sem limites. Ficou gravado com detalhes em minha mente o tempo vivido nessa rua.
Lembro-me perfeitamente de onde habitava com meus pais, irmãos e parentes, era um quarto e cozinha de um pequeno cortiço. Era muito pequeno ainda, mas guardo o vulto das pessoas entrando e saindo pelo extenso corredor em minha retina.
Em algum lugar da casa que não consigo identificar, havia um rádio onde se ouvia o programa: ”O Crime Não Compensa”. Ouvia-o com o temor da infância, com seriedade. Nos dias atuais não há tanta certeza.
A minha rua nunca teve importância, nenhum dos meus tiveram prestígio, e nem há registro na história, embora ocupássemos aquela habitação coletiva, naquele bairro operário com os maiores sacrifícios.

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