Mais de mil memórias

Muitos tecidos sobre a mesa e a escolha minuciosa das estampas e cores para que o trabalho fique harmonioso. Escolho este, depois aquele, ponho um tecido bem próximo do outro e os que me agradam, separo.
Réguas, cortadores com lâminas afiadas, linhas, agulhas entram em ação. E aos poucos os retalhos vão se unindo e o trabalho em patchwork surgindo. Em cada pedacinho de tecido a minha energia, os meus pensamentos, o meu encantamento.
Deixo um pouco o trabalho de lado e vou até a varanda para olhar as crianças brincando na escolinha que fica do outro lado da rua.

Seria imperdoável da minha parte não confessar que há dias estou muito calada, estranha e acredito que estamos todos assim: assustados e inconformados. Dentro de nós a tristeza silenciosa e ao nosso redor o som que não pode se calar: Isabela, Isabela, Isabela.
O interfone toca e sou avisada de que o correio chegou. Desço, assino o caderno de controle do prédio e tenho em minhas mãos não um pacote qualquer, mas o pacote com o livro!
Já no elevador mais do que depressa rasgo todo o embrulho e vem a alegria e, então, me transporto por segundos, para aquela menina da Rua Olívia.
Agora o livro sobre a mesa. Olho e por diversas vezes passo delicadamente as mãos sobre a capa. Os meus dedos deslizam sobre o título e cores. Sensação prazerosa.
Me acomodo na cadeira e nesse instante sinto que o tempo pára e com muita tranqüilidade leio cada história, cada comentário, cada nome e sobrenome. Aos poucos no, imaginário, os rostos vão se formando:
Maria Isabel, Zelio, Ana Luiza, Lopomo, Doris, Bernadete, Margarida, Vera, Helcias, Modesto, Miguel, Saidenberg, Mirça, Rubens, Leonello, Pedro, Alceu, Lary, Laerte, Navarro, Vera Lucia, Ivette, Vilton, Miriam, Gilberto, Odete, Heitor, Flavio, Chiappetta…e muitos outros.
Palavras entrando e saindo por ruas, avenidas, viadutos, vielas… pelo chão batido, pelo asfalto, por buracos, pedras, lamas, poeira… pelos botecos, petiscos, bebidas e músicas.
Palavras, vírgulas, exclamações, interrogações, datas, filmes, escolas, igrejas, amigos, ídolos. Frases inteiras encostando nas tristezas, no choro, na saudade, no riso, na felicidade, no peito, ventre e coração! Aos poucos os pedaços da memória se juntando para formar o todo, o tudo.
Quantas descobertas, quantos mistérios, segredos desvendados, amores confessados, acontecimentos detalhados, travessuras encantadoras.
Só mesmo muita vivência permitiu que ninguém se intimidasse em expor com a alma desnuda essas mais de mil memórias!

Aos idealizadores do projeto Caio Luiz de Carvalho, Clara Azevedo e a todos que com garra e capacidade possibilitaram a realização deste projeto o afeto e agradecimentos mais que especiais.
À Tatiana Beltrão, Patricia Schleuner e mais uma vez à doce e atenciosa Clara Azevedo o desejo de que um dia… lá no futuro vocês, também, se tornem escritores de seus momentos, de suas memórias.

e-mail do autor: [email protected]