A cidade porta-jóias

Nasci e cresci em São Paulo. Moramos primeiro na Freguesia do Ó, e, mais tarde, quando as coisas começaram a melhorar, nos mudamos para o bairro da Pompéia. Meus pais nasceram, ambos, em Cafelândia, pequena cidade a Noroeste do estado – meu pai veio para cá aos dois anos de idade, e só não é paulistano na certidão de nascimento. Já da parte de minha mãe ouvi sempre histórias sobre a primeira vez que ela viu São Paulo. Sobre a Avenida São João dos anos 1960, com poucos carros se comparada aos dias de hoje, mas já uma metrópole para uma menina que, aos 13 anos, vinha do interior e conhecia a cidade pela primeira vez. Diz ela que, assim que olhou para a avenida, pensou consigo: "quando crescer quero morar aqui".
Cresci ouvindo esta história, e esta fascinação permaneceu comigo, ainda que eu seja nascida e criada aqui. Como todos os paulistanos, guardo em mim aquela coisa que quem vem de fora não consegue entender, que a gente sente ao dar de cara com o prédio do Banespa no horizonte, ao ver o MASP, o Teatro Municipal ou tantas outras meninas dos olhos de quem ama essa cidade.
Mas, além dos lugares-comuns, tenho pela minha cidade aquele sentimento de amor dedicado. Chamo assim porque São Paulo guarda lindos segredos que, como num namoro, só quem se dedica, quem deseja conhecer o outro – quem abre o coração – pode ver. Mais do que uma megalópole que assusta quem vem de fora, São Paulo guarda pequenos presentes preciosos, possíveis de serem vistos apenas por aqueles que realmente desejam. É o caso das pequenas vilas, encobertas por prédios amontoados, guardando casinhas que dão a impressão de estarmos em outra dimensão, do marco escondido numa das armações da Estação da Luz, confirmando a origem inglesa da construção. Ou ainda dos morcegos que podem ser vistos no Parque do Ibirapuera à noite (pra não mencionar a Figueira…), da beleza da Rua Mário, na Vila Romana, dos querubins em relevo no andar de baixo do casarão da Avenida Paulista, um sobrevivente de outras eras paulistanas.
Há três anos, no entanto, não moro mais em São Paulo. Mudei-me para Berlim, e no início, estranhei a calmaria, a falta de edifícios, as lojas que não abrem aos domingos e fecham cedo aos sábados. "É que Narciso acha feio o que não é espelho"… Embora tenha conhecido diversas cidades, para mim nenhuma poderá, jamais, ser como São Paulo. E sempre que volto, ou sempre que me perguntam de onde venho, sinto crescer de novo no peito aquela sensaçãozinha do prédio do Banespa. E respondo, com um sorriso no coração: "sou de São Paulo".

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