Para não dizer que não falei das músicas

Às vezes nos deparamos com a perspectiva e a vontade de colocar em prática e também no papel, coisas que só a nós pertencem. Nosso mundo.<br> <br>Antes, porém, gostaria de dizer que admiro os saberes e conhecimentos daqueles que por aqui escrevem e que possuem uma mente privilegiada o bastante para se conscientizarem que, assim como a tecnologia, em constante evolução, eles têm que cuidar de seus cérebros de maneira a torná-los irriquietos, incertos, complexos, sedentos, para sempre aumentarem seus conhecimentos em prol de todos nós. (rs)<br> <br>Tranquila com os conselhos dados eu, particularmente, limito-me a plantar no meu quintal, em pequenos vasos, coisas novas, coisas bobas, coisas úteis, coisas que a vida ainda hoje me ensina e coisas que seria melhor esquecer.<br> <br>Mas, é sobre música que hoje quero escrever. Ela é uma, ela é todas! Ah! Ela é a trilha sonora da minha vida. Acompanha-me desde sempre.<br> <br>Cantigas de roda, sambas de Noel Rosa (quando o apito da fábrica de tecidos, vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você), Lupcínio Rodrígues (quem sou eu, pra ter direitos exclusivos sobre ela), Pixinguinha (tira seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor), Silvinha Teles (a noite está tão fria, chove lá fora), Dorival Caymmi ("nunca mais vou querer o teu beijo, nunca mais", ou "um bom lugar, para encontrar, Copacabana" ou "é quando o sol vai quebrando, lá pro fim do mundo, pra noite chegar"), Dolores Duran ("da-me Senhor uma noite sem pensar" ou "hoje, eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem"), Haroldo Barbosa e Luiz Reis (momentos são, iguais aqueles em que eu te amei), Cartola ("ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida" ou "queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam, o perfume que roubam de ti"). E têm muito mais e é bonito, é bonito.<br> <br>Quem não assistiu no sambódromo, a um desfile de Escola de Samba, realmente não entende o que é Carnaval. Sabe, aquele momento tênue em que uma escola acaba de desfilar e outra já vai começar, quando tudo é silêncio e de repente não mais que de repente, o Puxador começa a falar, sozinho, conclamando toda a gente a cantar sua Escola e a arquibancada toda se levanta para sauda-la e cantar junto, os fogos de artifício começam a pipocar e iluminar o céu, a bateria começa a tocar e tudo é tão lindo, tão magnífico que… eu choro. É uma emoção tão grande que toma conta da gente que eu passo a pensar que tudo nesta vida vale a pena (o que foi e o que ainda será).<br> <br>Há mais de 10 anos que eu e meu filho (que consegue gostar de carnaval mais do que eu) não perdemos um desfile. Demorei a encontrar o companheiro ideal para este tipo de evento. Filhas e marido, nem pensar, jamais, eles nos dizem (e não fazem falta).<br> <br>Mas, eu queria falar sobre bossa nova, da cumplicidade que temos desde sempre, sobre músicas e compositores, meu violão, mil coisas que penso e não consigo traduzir e aparecem de repente, de maneira iluminada numa canção. Edu Lobo, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Morais, são meus preferidos.<br> <br>Quando escrevemos tornamo-nos um pouco filósofos. Principalmente quando percebemos que momentos que um dia – lá longe – julgávamos efêmeros, são recordados com prazer a vida inteira. É voltar no tempo. É viver. É amar diferente, sem certezas. É se entregar, sem receio, é comer, sem culpa. É rir por tudo. É chorar por nada. É ir à missa, sem rezar. É verão. É lua cheia. E, também, é música.<br><br>