Os vigilantes da casa

A dona da nossa casa, a chamada Chorenga, uma italiana de nome Ângela, tinha o hábito de todo dia 26 de dezembro tirar umas férias em Poços de Caldas. Mesmo sem ele pedir eu, meu irmão, e os netos dela, Santino e Léo, éramos os donos da situação. Pegávamos todas as frutas que tinham na época e mandávamos goela abaixo. Estávamos no início dos anos 1950. Para não dizer que só gostávamos de frutas, tinha também a mandioca fresquinha que tirada da terra e colocada numa panela no fogão a gás (privilégio de poucos) ficava molinha e com açúcar a gosto (bastantão) era uma festa a chamada festa do interior em pleno Itaim Bibi. Ovos tinha em profusão fazíamos um furinho em cada ponto e chupávamos descia mais rápido do que quiabo bem cosido.
Só não matávamos as galinhas porque não sabíamos cozinhar, bem que o Leo, perguntou para minha mãe: Dona Orlinda como é que se cozinha galinha? Minha mãe disse a ele que galinha não se matava para comer e sim frango. Galinha era para botar ovo. Ele foi mais adiante: E como é que a gente sabe quando é galinha ou frango?
Pela crista, disse ela. As galinhas têm a crista arredondada. O galo tem a crista mais estreita e mais alta que as galinhas. Mas ninguém tinha coragem de matar, eu tentei, mas não sabia destroncar o pescoço dela, dei uma torcida, mas não tive força para agüentar ela se estrebuchava muito. Desistimos. Agora quando chegava o mês de março quando dona Ângela chegava é que a coisa fedia. Ela logo cedo ia à chácara e via os pés de frutas limpos. Punha-se a gritar. Mi mandijarti tuti, lanrandja, tuti cáqui, tuti banana. Filhos de uma putanaaa. Mas ela era uma verdadeira cricri. Os inquilinos dela tinham sempre dores de cabeça. Ela vivia pedindo aumento dos alugueis. As três casas que tinha ao lado da nossa eram compostas de pessoas calmas que falavam com ela na base da educação. Já meu pai soltava palavrões cada vez que ela ia encher o saco por causa de aumento de aluguel. Um domingo foi à gota d´água. Pouco antes do almoço ela estava no portão resmungando. Meu pai já foi falando. Sai daí sua velha mulambenta. Ela cismou de não o atender. O velho esquentou a cabeça, pegou uma picareta, e foi pra cima dela. Enquanto ele abria o portão deu tempo para ela correr. Ela era gorda, meu pai não ficava atrás. Foi uma cena hilária, meu pai estava quase a alcançando. Para sorte dela dona Julia vinha chegando para almoçar em casa, deu um grito. Seu Ângelo, o que é isso? Meu pai estancou. Ele tinha muito respeito pela nossa tia. Daí veio toda a família dela, numa verdadeira guerra de tijoladas, nossa casa era separada da casa da chorenga por dois muros. Voava tijolo de todo lado.
Meu pai era muito esquentado. Na casa da frente de dona Elvira, tinha sempre os amigos que iam lá bater um papo com o filho dela, também Mario. Outro ia lá porque estava afim da filha dela, a Pina, uma viúva muito gostosa. Um deles ficava mexendo com a minha irmã que tinha 14 anos e em vez de ficar lavando a louça, ficava girando pano de prato olhando os marmanjos. Numa dessas meu pai pegou um deles mexendo com ela. Foi lá tirar satisfação. Alem de falar para ele não mais mexer com a menina, disse algum palavrão. O otário fez menção de dar um soco, colocando as duas mãos como se fosse lutador de box. Meu pai, nem pestanejou, ah filho da P…, é boxer? Pois tome. Deu uma tremenda porrada na cara do sujeito que caiu um metro e meio para traz. Quando ele ia levar uns pontapés, veio dona Laura correndo, segurando-o pelo pescoço.
Já vi cara louco. Mas igual a meu pai. De jeito algum.