Aos 17 anos resolvi sair pelo mundo para me entender melhor. Veio a minha mente que a vida era a melhor faculdade que poderia fazer. Então passei a ser um andarilho da noite, pois de dia trabalhava normalmente. Fazia longas caminhadas, era um roteiro de quatro quilômetros a pé que diariamente fazia. Da Vila Olímpia saindo pela Avenida Dr. Cardoso de Mello, ia pela Nova Cidade, Casa do Ator, Avenida Santo Amaro até a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Perambulei por aquela região durante muitos anos. Conhecia todos os atalhos da região. Namorei muitas moças empregadas domésticas. Uma experiência muito valiosa. Pois a empregada doméstica não era bem vista pela sociedade que as via como uma possível ladra, quando algo desaparecia, pombo correio de ladrões, ou levar namorados em seus quartos quando os patrões estavam viajando. Na verdade existiam moças valiosas que eram tidas como seres da família tamanha a confiança que os patrões tinham nelas. Era o caso de Teresa uma bonita negra, cozinheira de forno e fogão, o salário mais alto das serviçais domésticas. Teresa trabalhava o dia inteiro e se precisasse dela em horas extras era só pedir. Naquela mansão da Rua Oliveira Pimentel na casa de um famoso advogado, ela era tida como uma mulher indispensável, tudo praticamente passava por suas mãos. Só não podiam contar com ela em dias de carnaval. Era uma das cabrochas do cordão do Vai Vai, do bairro do Bexiga. Teresa rebolava tudo o que sabia quando dos desfiles dos cordões de carnaval, e depois quando o Vai Vai, deixou de ser cordão e passou a ser escola de samba, quando o carnaval foi oficializado pelo prefeito paulistano, o carioca José Vicente de Faria Lima, a pedido do radialista Rubens de Moraes Sarmento. Teresa era um pouco poliglota, falava um inglês razoável. Dava raiva quando ela se metia a falar em inglês a um pobre pretendente a amigo. Pliz! Era seu, por favor, preferido. Sem contar outras coisas que falava com alguém quando ela não queria que se soubesse o que estava falando. Fora isso era gente boa. Os patrões estavam torcendo por ela se casar com Sebastião o motorista da casa. Assim teriam ela pela vida toda. Na certa seu quarto seria ampliado e ali se agasalhariam um "lindo casal". Mas o coração de Teresa tinha dono. Noca era seu futuro proprietário. Passista da mesma escola, ela só estava esperando que o crioulo despachasse a companheira, pois não queria ser a segunda, e nem mesmo a primeira, tendo um rabo de saia por trás. Queria mesmo Noca com exclusividade. Não sei no que deu, pois um dia recebi bilhete azul. Foi num sábado depois de ir ao cine Radar com ela. No boteco do Maluf na mesma Avenida Santo Amaro onde ficava o cinema. Enquanto comíamos "dois, pastel" e tomávamos "um Chopes" ela foi franca: Yogourte, tá na hora de nos despedirmos. Vai procurar sua turma, porque Noca já se decidiu por mim. Aquela carcaça veia esta sendo despedida. E fui mesmo procurar minha turma. Mas a imagem daquela negra linda e alegre ficou na minha retina por muito tempo. ESSA RONDA DAS CALÇADAS TEM HISTORIAS GENTE…