Memórias do Pós-Guerra

Meus caros, eu nasci no curso da II Grande Guerra Mundial, se disse que sofri com a guerra seria um grande mentiroso, pois desse maldito episódio eu me lembro pouco mais que nada.
Minhas memórias me fazem lembrar dos anos pós-guerra. Anos sofridos, aliás, muito mais sofridos do que se pode imaginar.
Como dizia um amigo meu "anos de fartura. Fartava carne, fartava pão, fartava quasi qui tudo".
Minha família, como só acontecer nas antigas era grande. Eram três famílias em uma, ou seja, na nossa casa de 4 quartos lá na Rua Augusta, moravam 10 pessoas, meu avô José, minha avó Laura, minha tia Neide com os dois filhos (Sonia e Roberto) meu pai, minha mãe, eu e meu irmão e minha tia Zaíra (Zazá para os íntimos).
Imaginem alimentar todo esse batalhão com a falta e o racionamento de alimentos que vigia na época.
As filas do pão (feito com uma mistura de farinha de trigo, farinha doce linhaça e farinha de mandioca) eram enormes, comprava-se no máximo duas filões por pessoa. Para conseguir um pouco mais tinha-se de usar o subterfúgio de entrar duas ou mais pessoas na fila, mantendo-se alguma distancia entre elas, pára não haver denuncias e, conseqüentemente a impossibilidade de levar o mantimento para casa.
Esse ato de levar o alimento para casa tinha que ser muito rápido, pois o produto dessa miscelânea de farináceos, ao sair da Padaria começava a endurecer e, endurecia tanto que podia tornar-se uma arma nas mãos de algum facínora.
Outro mantimento escasso naquela época era a carne. Nossa família tinha conseguido um cartão que autorizava a compra "limitada" do produto na Subsistência do Exército que ficava na Rua General Jardim esquina com a Rua Araújo, e para essa compra as 11:00 horas da manhã, saia o Miguelzinho da Rua Augusta 291, devidamente equipado com seu único pé de patim de aço inox com presilhas adaptáveis à sola dos calçados.
Isso mesmo, eu disse pé de patim, pois era só um mesmo, e eu ia todo faceiro, em uma das mãos uma banqueta de madeira para ficar sentado enquanto a fila não andasse, na outra mão um caderno e um livro párea ficar estudando enquanto na fila, dentro do caderno ia também um bilhetinho com as quantidades e os tipos de carne que deveriam ser comprados (não eram muitos quilos, no máximo 3 ks. De carne de 2a.) e, no pé o já comentado patim, descia a rua Augusta, entrava na Rua Caio Prado, quebrava a Gravataí entrava na Praça Franklin Roosevelt, descia a Rua Bento Freitas e chegava ao fim da fila, quase sempre na esquina das Ruas General Jardim e Bento Freitas, e ali estacionava aguardando sua chegada ao balcão do açougueiro.
A espera era dividida entre estudos e preces para que ainda tivesse o que comprar quando chegasse a minha vez (muitas vezes voltei de mãos abanando), mas o patim sempre rodando.
Como era arriscada a minha tão simplória vida no pós-guerra, mesmo assim tenho uma certa saudade mórbida daquele tempo.