Sete horas da manhã e a fila já virava a esquina. A porta do edifício (amarelo, tinta descascando) ainda estava fechada, mas todo o brasileiro sabe que tem que chegar cedo quando se trata de documentos. Na minha frente, já estavam pelo menos quinze pessoas e várias crianças, algumas sentadas na calçada, resignadas. A mulher que estava no primeiro lugar da fila se gabava em alta voz que havia chegado quando ainda estava escuro. Ela carregava uma garrafa térmica com café, pão e uma sacola com bananas, as quais ela descascava e comia uma a uma, sem oferecer para ninguém.
Todos esperavam sem reclamar, pois não há como reclamar de filas e coisas que tais em São Paulo.
Oito e meia e finalmente alguma coisa está acontecendo. A enorme porta marrom se abre para deixar entrar algum figurão e se fecha em seguida. Era um homem corpulento, vestido de terno azul marinho e já suando no calor do dia, carregando montes de papéis em uma pasta. Pois quanto mais papel você carrega, mais importante você é.
Nove horas, e nada. Um murmúrio de descontentamento passa pela fila. “Eles disseram que abriam as nove”, diz uma garota ao meu lado. “Não acredite, meu bem”, responde uma senhora idosa atrás. Ela carregava uma criança, talvez um neto. O bebê começou a chorar e ela tirou a mamadeira da sacola para alimentá-lo.
O calor estava aumentando mesmo e eu estava com sede. Perguntei onde poderia beber água, mas a avó do bebê me disse que se eu fosse atrás de um bebedouro perderia meu lugar. Nove e meia, e dois funcionários finalmente abrem a porta e começam a nos dar ordens. “Fila aqui” diz um. “Não empurrem”, diz o outro. Fomos dirigidos para um saguão dentro do edifício, onde continuamos a fazer fila.
Portas verdes duplas agora nos separavam dos documentos que tanto precisávamos. Dava pra ver dentro das salas, onde havia mesas enormes e escuras cobertas de papéis, e onde jovens de salto alto andavam de cá pra lá, sem um alvo aparente.
Alguém chama as duas primeiras pessoas da fila. A fulana que havia chegado quando ainda escuro deu uma olhada de desprezo para todos nós, e disse algo sobre como ela era esperta de ter madrugado. Após a segunda pessoa ter entrado, para o nosso choque, as portas verdes se fecharam de novo. Parece que eram dois de cada vez.
Por este tempo, as pessoas estavam fazendo amizade na fila. Qual é a melhor maneira de passar o tempo se não conversar com a pessoa ao seu lado, no mesmo predicamento? Todo mundo contava qual era o documento que precisava, trocavam-se nomes e até endereços, nomes de filhos e até estórias tristes. (Alguém estava se divorciando, alguém tinha perdido um pai, alguém tinha um tio que havia saído de um hospital psiquiátrico.) Passavam-se fotografias. Alguém precisava ir ao banheiro e teve que deixar a fila, tendo sido impedido de voltar ao mesmo lugar. Os guardas, então, nos deram senhas no caso de alguém mais precisar deixar a fila. Por que não pensaram nisso antes?
As duas primeiras pessoas saíram. A mulher madrugadora estava furiosa: ela havia esquecido um documento e precisava voltar outro dia. Sacudia a sacola na cara dos guardas e disse algumas coisas que não vou repetir. Eles meramente riram dela.
Minha vez chegou às 10h45, mas quando eu havia entrado no edifício alguém veio avisar que todos os computadores haviam caído e que eles não atenderiam mais ninguém neste dia. A fila começou a se dispersar em silêncio absoluto. Admirei novamente a resignação do paulistano em geral, que nem tenta mudar decisões oficiais. (É claro que existem exceções.) Pensei que tinha que tentar alguma coisa, qualquer coisa, para evitar a fila no dia seguinte; pé-ante-pé, passando por trás de uma guarda, virei à esquerda num corredor e achei uma porta com uma placa que dizia: “Mr. Carlos Alberto Soares (nome fictício), Diretor do Departamento”, ou coisa parecida.
Seguindo uma inspiração súbita, me aproximei de uma das meninas de salto alto andando à toa e disse, em tons assertivos, que tinha que falar com a pessoa mais importante do departamento. Era, como eu esperava, o tal Carlos Alberto. Ela me deu uma olhada meio desconfiada, mas foi falar para o homem que havia alguém querendo vê-lo com urgência. Eu fiquei esperando ali plantada, não acreditando realmente que conseguisse algo, mas brava demais para ir embora como todos os outros.
A mocinha voltou um minuto depois dizendo que eu podia entrar. Mal consegui acreditar. Carlos Soares, um homem calvo, baixinho e de bigodes, estava sentado atrás de uma escrivaninha fazendo absolutamente nada. Ele parecia calmo e sorriu pra mim, o que já foi um bom começo. Sentei à sua frente, fingindo estar muito certa do que estava fazendo, e expliquei que havia ficado na fila desde as sete da manhã e tão somente queria saber se o CPF do meu marido poderia ser renovado. Que não podia voltar amanhã. Que queria alguma providência dele.
Ficamos olhando um para o outro por uns momentos e estava esperando ser mandada embora, escoltada por dois guardas. Ao invés disso, Carlos Soares me pediu o número do CPF do meu marido e me deu um dos seus cartões. “Os computadores estão com problemas hoje”, me disse. “Mas quando você vier amanhã, não fique na fila. Venha direto para a porta e diga que Carlos Soares está esperando por você. Eu já terei resolvido o problema quando você chegar aqui”.
E, com isso, apanhou algo de dentro de uma gaveta. Era uma embalagem de suco de maracujá. Ele pegou dois copos e me serviu um. “Está tão quente, não dá pra agüentar”, explicou. Se alguém me dissesse que eu estaria tomando um copo de suco com a pessoa mais importante do departamento naquele dia, eu certamente não teria acreditado.
Esta aventura é verdadeira e a parte dois segue depois, espere por ela. Tem mais.
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