Nunca deixamos de ter em nossa casa, lá em Itaquera, um bom cachorro para tomar conta do quintal, das galinhas e das frutas. Em muitas épocas, chegamos a ter quatro ou cinco deles.
Eu lembro bem de alguns, em especial o Boy Preto, mestiço de dobermann e veadeiro, cachorro valente, o maior “brigado” da Campanela e do Morro do Falcão. O Boy Peludo, meu maior companheiro, o melhor caçador de preás de toda a Itaquera, Loti, Boni, Laika, Pequi e muitos mais.
Entre eles, um sem dúvidas foi o meu favorito: o Thor. Pastor belga todo preto, valente, não sabia caçar, mas foi o mais inteligente de todos.
Thor já era famoso por seu porte e beleza, mas todos os vizinhos destacavam sua maior qualidade: ir às compras para minha mãe. Bastava dona Nair, minha mãe, escrever o pedido, colocar na sacola e mandar. “Thor, vá ao açougue”, e lá ia ele. “Thor, vá à quitanda”, e lá ia ele. “Thor, vá à venda”, e ele não titubeava. Thor sempre ia direto ao destino e do mesmo modo retornava para casa, com a sacola firmemente prendida pelas alças de couro, na grande boca.
Thor nunca errava o destino, e não importava o pedido: ele sempre trazia direto para casa, sem parar nem mesmo para paquerar a Diana (cachorra do seu Eduardo da peixaria). Diariamente, ele ia à venda do Sr. Luiz, um armazém típico secos e molhados, onde se encontrava um pouco de tudo.
Na venda daquele português, todos, lá no Morro do Falcão, compravam na caderneta, um sistema da época onde não existia inflação e o crédito era concedido em função da confiança; as pessoas pagavam suas contas, ninguém sabia o que era inadimplência. Toda compra era anotada na caderneta e, no final do mês, a mesma era somada pelo vendeiro e o total era apresentado ao cliente, juntamente com um brinde pela fidelidade. Bons tempos aqueles.
Seu Luiz, um português parrudo, de mais ou menos uns cento e dez quilos, dentro de seu corpanzil de um metro e noventa, vivia rindo à toa e, quando ria, suas enormes bochechas ficavam ainda mais vermelhas que o normal. Ele agradava todas as crianças da vila, distribuindo balas quando lá nos reuníamos todas as noites para assistir, na única tv do bairro (branco e preta), as aventuras de Rim-Tim-Tim, outro famoso cachorro. Minha mãe sempre falava que ele também gostava muito de agradar as empregadas que iam fazer compras para as patroas, mas confesso que somente hoje entendo o veneno que havia naquela frase.
Eu lembro bem daquele dia em que minha mãe escreveu o pedido e mandou o Thor ir à venda do Sr. Luiz comprar dois ovos, um quilo de macarrão Padre Nosso, um quilo de feijão Java e um pedaço pequeno de toucinho defumado. Como sempre, ela colocou o pedido na sacola e lá foi o Thor.
Estávamos brincando debaixo da jabuticabeira eu, minha irmã Ana e o Clovis, nosso vizinho, quando minha mãe perguntou pelo Thor, pois já se passava mais de uma hora e ele não havia retornado com as compras que ela queria, para preparar o “cassulê brasileirinho” que faria para o almoço.
Por ordem de minha mãe, e muito contra gosto, fui até a venda, que ficava a uns trezentos metros de casa, verificar o que havia acontecido.
Quando lá cheguei, deparei com uma cena que jamais irei esquecer: seu Luiz estava acuado num canto do balcão, perto da caixa de bacalhau, com o ferro de baixar a porta na mão, e o Thor, com olhar fixo no portuga, rosnava como um leão bravo. Seu Luiz, gaguejando, balbuciou algumas palavras que entendi serem para que eu fosse buscar minha mãe.
Corri para casa e informei minha mãe que o Thor estava querendo morder o dono da venda. De imediato, ela pegou a corrente e fomos para lá salvar o portuga.
Aos gritos, minha mãe mandou o cachorro afastar-se do vendeiro e o atou na corrente. Tivemos que arrastar o Thor para casa, pois ele não queria arredar pé da venda.
Estranhando o comportamento do cachorro, minha mãe não mais o mandou para as compras e, além disso, manteve-o preso na corrente.
Somente alguns dias mais tarde, no final do mês, é que acabamos descobrindo o que realmente havia ocorrido, o motivo pelo qual o cão teve aquele comportamento agressivo. Quando chegou a conta da venda, o total do Seu Luiz não batia com o total da conta da minha mãe. De imediato, dona Nair, que era habilitada com os números, efetuou a reconciliação da conta da venda e aí descobriu que naquele dia seu Luiz, provavelmente por distração, havia marcado duas dúzias de ovos e não os dois ovos pedidos na compra.
Thor foi solto de imediato e retomou suas atividades de compras até quando já estava velho e não podia mais carregar a sacola. Morreu com quase onze anos, e foi enterrado juntamente com sua sacola, na divisa do quintal da tia Terezinha, bem em baixo do pé de manga.
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