Os lanterninhas

Sempre vou com a minha esposa nos cinemas do shopping. Gosto de entrar antes da sessão começar, escolher um bom lugar, longe da tela. Reparei que nos cinemas do shopping não tem lanterninhas, as pessoas que entram durante a sessão têm dificuldades para encontrar um lugar para sentar. O cinema fica muito escuro, são salas pequenas.

O progresso muda tudo. Sinto uma saudade imensa dos tempos da juventude, quando frequentávamos os cinemas. Saudade do guarda civil na porta do cinema, com sua espada na cintura impondo respeito. A gente se sentia seguro.

Saudades dos lanterninhas, que não deixavam a gente namorar em paz.

No Cine Ritz, Consolação, tinha o lanterna, o Castro (era o chefe dos lanterninhas), ele era terrível, mas com o tempo ficou nosso amigo. Tenho a impressão de que já faleceu.

A gente assistia ao filme no maior sossego.

Hoje nos cinemas dos shoppings a garotada vê o filme falando no celular. Senta nas poltronas e coloca os pés na poltrona da frente, não tem respeito, são os donos do cinema, não tem ninguém para tomar providência (não tem guarda, não tem lanterninha, vai reclamar para quem?).

Lembro-me do Cine Marabá, tinham vários, conhecíamos todos, éramos amigos.

Nos vários cinemas da cidade a gente tinha amizade com eles. Sinto saudades dos amigos lanterninhas.

Hoje uma pessoa idosa não pode entrar na sala de projeção se o filme já tenha começado. Não vai ver nada na maior escuridão, não tem ninguém para ajudá-la a encontrar um lugar.

Dizem quem sente saudades está ficando velho. Será?

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