Bairro dos mais destacados da capital paulistana, berço do samba onde até italiano bate o pandeiro, espanhol "chora" na cuíca e o português "arrepia" no repique. Lugar onde japonês se chama Walter e toma cachaça ao invés de saquê, onde sírios e libaneses dançam o "quadradinho", lugar onde corinthianos e palmeirenses não se estranham e ainda dividem a "Brahma" bem gelada, confraternizando o campeonato, ganhe quem ganhar.
O Bixiga de Adoniran Barbosa, que não morou por lá, mas era assíduo frequentador. De Agostinho dos Santos, cantor de boleros e de sambas-canções, anfitrião de Johnny Mathis, que teve a honra de degustar um cafezinho na padaria da esquina da Santo Antonio com a Delegado Everton. Bixiga do sambista mais autêntico de toda a paulicéia, Germano Matias.
Falar destes e outros valores artísticos e culturais é "sopa", mas o Bixiga ainda esconde outros valores anônimos que só são evidentes em seu "habitat" natural. Foi o caso de Armandinho Puglisi (que eu não tive o prazer de conhecer), que deixou sua marca com o registro de uma das mais poéticas comunidades brasileiras.
O Bixiga tem de tudo. Escola de samba, a Vai-Vai, as melhores padarias italianas, as melhores cantinas, os melhores vinhos, a vida pulsa desde o dia até a noite e varando as madrugadas com seus bares e botecos intimistas. Sua gente, de famílias de tradição centenária, fincou raízes e transcendeu o imaginário com suas histórias de vida.
A cada esquina do Bixiga existe um cenário de casos e "causos", como bem gostaria Rolando Boldrin, mas o palco é sempre um só. Do Cine Rex ao TBC e o Maria Della Costa, dos galpões que apresentaram as novidades da "nova" arte moderna, onde até Elis e Adoniran, em íntima cumplicidade, acertaram o "álvaro" da simplicidade do cotidiano de uma mesa de bar.
Hoje, ainda bem situado, embora rasgado pelas vias de acesso do progresso alfáltico e de concreto armado a rasgar-lhe com seus viadutos, elevados e vias de ligação expressa, o Bixiga ainda guarda e preserva o seu lado antigo e romântico, com suas ruas, algumas pequenas e estreitas, com suas casas coloridas em suaves tons pastel, algumas avarandadas ou alpendreadas, sejam elas térreas ou assobradadas, com suas portas de uma ou duas folhas, embandeiradas ou não, janelas com venezianas que se escancaram por sobre uma floreira, de onde se pode vislumbrar o delicado avanço do terreno interno com gramados sempre bem cuidados.
Apesar de fazerem parte do moderno cotidiano, os prédios de apartamentos no Bixiga ainda são em pouca quantidade, o que outorga ao bairro uma posição de conservadorismo autêntico. Eles estão por lá sim, mas ainda não oferecem ameaças modernistas. A birra teimosa dos tradicionais funciona como pirraça insistente em não ceder à modernidade verticalizada, o que já é um grande alívio.
Independentemente das transformações estéticas de algumas ruas e localidades (a Rua João Passalacqua simplesmente desapareceu), a vida no Bixiga segue tênue e tranquila, contrária à grande agitação do centro da cidade (logo ali, a cinco minutos de distância), com a sua gente fazendo o que de melhor sabem fazer: viver.
Parece incrível, mas o Bixiga é um bairro de atmosfera própria, indelével e indefectível, e, se alguém aspirar essa atmosfera mais profundamente, poderá inebriar-se com sabores de muitas partes do mundo, principalmente a italiana, com suas massas e molhos, queijos e vinhos, pães, salames e pizzas.
Devo, não nego. Pago quando puder. Tenho uma dívida de eterna gratidão com esse bairro, cúmplice de toda a minha trajetória de vida, amor e paixão, o Bixiga do meu coração.
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