Era época de exame final. Eu estava no último ano, no Ginásio Estadual Anhanguera, no bairro da Lapa, na década de 40 havia as notas mensais, a prova escrita do primeiro semestre, a prova escrita final e a prova oral. Esta última era realizada por uma banca examinadora formada pelo professor da matéria e mais dois professores. O aluno era argüido pelos três que, ao final, depois de confabularem, atribuíam a nota. Eu, devido a inicial do meu nome era sempre o primeiro a ser chamado. Fui um estudante mediano. Nas demais matérias era aprovado com notas razoáveis, porém a matemática era o meu ponto fraco. Notas baixas eram comuns nessa matéria em minha caderneta escolar.
Naquela noite eu estudava a noite, entrei na sala com os colegas. Todos acomodados, vimos entrar os membros da banca. Eu esperei ser chamado, mas, surpresa, os professores resolveram começar pelo último aluno da chamada. Eu seria o último a ser chamado. O exame era dividido em duas partes. A primeira era de perguntas sobre a matéria e a segunda consistia na demonstração no quadro negro de um teorema, cuja solução deveria terminar com um cqd (como queríamos demonstrar). Mas infelizmente eu nunca havia conseguido finalizar um. Aquilo não entrava na minha cabeça. Enquanto os colegas eram chamados eu lia e relia os tais teoremas (eram em numero de dez, dentre os quais um seria sorteado). A classe ia se esvaziando. A prova de matemática era mais demorada que de outras matérias. Outras classes iam terminando. Seus professores vinham se sentar nas carteiras já desocupadas pelos alunos. O pessoal da limpeza esperava impaciente junto à porta de minha classe. Eu precisava da nota nove para tirar meu diploma do ginásio. Dos dez teoremas eu teria que sortear um para sua demonstração. Então eu arquitetei um plano suicida: decorei o melhor que pude parte dos teoremas, digamos até a metade.
Os últimos alunos tinham saído. A banca cansada, os outros professores e o pessoal da limpeza impacientavam-se. Fui chamado. Respondi razoavelmente às perguntas. Sorteei o teorema. Peguei o giz e fui desenvolvendo na lousa com grande desenvoltura o referido teorema. Já estava chegando ao ponto critico a partir do qual não saberia continuar.
Foi ai que o professor me interrompeu, perguntou aos demais membros da banca examinadora se estavam satisfeitos. Imediatamente eles concordaram, não era habito saber a nota no mesmo dia da prova mas, como fui o último, perguntei e fui informado ter tirado nove. Era o que precisava para tirar meu diploma ginasial. Sai pela rua cantando e pulando de alegria.
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