A Liberdade, naquele tempo, 1953, ainda guardava alguma coisa de rua do interior. Embora transitasse por ela ônibus, carros e os charmosos bondinhos barulhentos, com eles concorriam o carvoeiro, o caminhão de gelo, o carrinho do padeiro com sua bendita buzina, anunciando os pãezinhos do café da tarde e o "turco" que apregoava o seu eterno "roupa velha, roupa velha", com um sotaque muito engraçado.<br><br>Na época, eu estudava no Grupo Escolar Campos Sales, abrigado num lindo prédio, com duas escadarias que levavam ao andar superior, onde ficava minha sala de aula e que, anos depois, foi incendiado por um aluno vindo a servir de abrigo aos sem-teto durante muito tempo. Hoje está sendo reformado, e, salvo engano, lá funcionará um museu japonês, ou coisa parecida.<br><br>Morávamos na própria Avenida Liberdade, há duas quadras, mais ou menos, do Grupo, que ficava na Rua São Joaquim.<br><br>Na ida sempre havia a companhia da Ana, garota alta, mais velha que eu, de cabelos pretos curtíssimos. Descíamos a Rua Fagundes, uma tremenda ladeira, virávamos na Taguá, ruazinha diferente das outras com suas casinhas geminadas e iguais que formavam uma vila com arzinho europeu. Ali, invariavelmente, juntavam-se a nós mais duas colegas: Maria Inês e Gislene.<br><br>Finda as aulas do dia, preferíamos subir a Rua São Joaquim para dar uma volta maior, demorar mais para chegar às nossas casas e "roubar" amendoins e sementes de girassol dos sacos dos armazéns, expostos em suas entradas. Naquele percurso a turma era maior e a algazarra proporcional a ela.<br><br>Até aqui nada de diferente, éramos só um bando de crianças barulhentas de idades não superiores a nove anos. O que havia mesmo de diferente, e, de certa forma, estranho, era uma pequena lâmpada vermelha, na parte fronteiriça de uma casa que ficava no que poderia ser a parte dos fundos do Hospital Santa Helena, do lado da Rua São Joaquim e que, vez ou outra, ficava acesa, independente de ser dia claro.<br><br>As estórias a respeito da luz e da casa eram variadas, mas a que ganhava de todas é que lá era a casa dos mortos, onde eles ficavam a espera de saber, pelos anjos, para que lugares iriam, ou seja, para o inferno, para o céu ou para o purgatório.<br><br>Ana tinha sua própria versão. Dizia que a luz era acesa quando aparecia no hospital uma alma penada e que ali ficava presa por horas até que uma boa alma viesse libertá-la e levá-la para o julgamento de Deus.<br>Eu nada sabia de morte e de alma penada, mas ouvia muitos "causos", o que me fazia uma criança medrosa. <br><br>Entretanto, num daqueles dias frios de São Paulo, quando a garoa não dá trégua, vimos a tal luz acesa. Daí, alguém inventou apostar algumas balas Tufe (não me lembro se é assim que se escreve) para ver quem teria coragem de entrar na casa. Eu, embora extremamente medrosa, daquelas que dormia de cabeça coberta com medo do escuro, mas também muito curiosa, inscrevi-me para a aposta. O grande problema é que ninguém mais se atreveu a participar, e, como ficaria mal desistir, tirei coragem das entranhas e fui em frente.<br><br> Entrando muito devagar, tive a impressão de que fosse uma missa. Diferente, sim, mas uma missa, já que todos estavam de preto, um ou outro rezava, havia muitas flores e um forte cheiro de velas, como em qualquer igreja. Pequenina que eu era não conseguia enxergar o verdadeiro motivo daquela reunião que se encontrava em cima de uma mesa. Na ânsia de ver o que era, coloquei-me nas pontas dos pés, segurando a mala de couro do material escolar, desequilibrando como um pêndulo, pra lá e pra cá, querendo mesmo é desistir do propósito e levar a notícia de que era apenas uma missa, nada mais.<br><br>Não sei se para me assustar, ou apenas, para me ajudar, quando já estava pronta a assumir meu fracasso, um senhor levantou-se e pude ver um caixão preto, onde um homem pálido, com algodão nas narinas, estava deitado. Rapidamente desvencilhei-me da suposta ajuda e saí correndo, assustada, ao encontro das meninas para contar o que vi.<br><br>Naquele dia ganhei a aposta, mas também, de forma nada convencional, desvendando o mistério da pequena luz, entendi como nossas vidas são curtas.<br><br>E-mail: [email protected]