Entre 1971 e 1975 eu participava da diretória do SAT – Sindicato dos Artistas e Técnicos, com sede na Av. São João ao lado do prédio onde por muitos anos funcionou uma loja muito famosa em nossa capital conhecida como Três Leões, e que algum tempo depois que a mesma encerrou suas atividades comerciais o local passou a ser ocupado por uma filial da não menos famosa Loja Mappin.
Com a ida do nosso presidente o ator Juca de Oliveira para o Rio de Janeiro (contratado da TV Tupi pela Rede Globo), eu que era secretário passei a ocupar o cargo de presidente da entidade.
Foi uma época sindical muito conturbada, Ai – 5, Censura, torturas do delegado Sergio Fleury, ação dos grupos armados de esquerda, greve de artistas da televisão por atraso de pagamentos (principalmente TV Excelsior, Record e Tupi), incêndios inexplicáveis sofridos por varias delas. Greves dos dubladores de filmes reivindicando que o pagamento do trabalho da profissão fosse feito por hora e não por anel dublado como acontecia até então. E nós diretores do sindicato tanto do Rio como em São Paulo indo e vindo à Brasília semanalmente, buscando junto ao Ministério do Trabalho a regulamentação da profissão de artista, até então ainda não reconhecida no Brasil.
Nesse clima sindical agitado, nós da diretória esperávamos ansiosos pelas folgas do Carnaval que estavam próximas.
O Doutor Buzzoni, era o advogado contratado pelo sindicato para atuar nas reivindicações trabalhistas dos nossos sócios, por outro lado ele também era membro da diretória da Escola de Samba Pérola Negra, que na época desfilava ainda no segundo ou terceiro grupo do Carnaval paulistano. Esses grupos desfilavam ainda na Av. São João, e não na Av. Tiradentes destinado ao desfile do primeiro grupo.
O tema da escola seria uma homenagem ao inesquecível palhaço Piolim do qual eu sempre fui ardoroso fã.
O Dr. Buzzoni então me perguntou se eu queria ser o destaque da escola vivendo a figura do Piolim, coisa que eu topei na hora cheio de orgulho.
Além de ser um grande fã do famoso Abelardo Pinto (o Piolim), e tê-lo visto em cena inúmeras vezes em seu circo armado por longos anos na Avenida General Olímpio da Silveira, quase esquina com a Rua Conselheiro Brotero e ter depois um pouco antes de sua morte conversado com ele pessoalmente em sua casinha de madeira que houvera sido antes o seu camarim desmontado do velho circo antes de ser despejado pelo Inps, proprietários do terreno da General Olímpio da Silveira.
Assim cheio de orgulho por poder viver e reviver como destaque em uma escola de samba a figura mágica dos meus tempos de adolescente, o famoso e querido palhaço Piolim, iniciei meus preparativos para encarnar meu grande ídolo de infância, ou seja, provar as roupas o enorme colarinho branco, teste de maquiagem etc. e tal, tudo fiz com muita boa vontade mesmo sendo eu um ser bem pouco carnavalesco e nada chegado a Escolas de Samba. Sempre apreciei isso tudo bem de longe pelas transmissões televisas de forma moderada, torcendo sempre para a minha favorita, Rosas de Ouro, anteriormente a Vai-Vai e atualmente a Gaviões, em razão de ser torcedor corintiano.
Mas aquele Carnaval fatalmente seria muito especial para mim, então eu contava os dias para o inicio do Carnaval e assim poder desfilar de Piolim pela passarela da Av, São João da Alameda Grete até a Praça do Correio no Anhangabaú.
E assim naquele inesquecível sábado de Momo, eu adentrei com a Pérola Negra pela Avenida cantando o enredo da Escola em homenagem ao querido Piolim, infelizmente não me lembro mais da letra.
Foi emocionante passar desfilando frente aos jurados instalados ao longo da avenida talvez uma das maiores emoções da minha vida. E então dias depois a alegria maior, a Pérola Negra vista por muitos como uma escola de "brancos", por contar com a participação de jornalista e pessoas não muito ligadas ao tradicional do Carnaval Paulistano. Ficou juntamente com a escola Tom Maior classificadas em primeiro e segundo lugar com direito ao acesso ao segundo grupo se não me falha atualmente minha idosa memória.
Mas o melhor estava por vir, ao terminar o desfile eu sem tirar a roupa de palhaço, peguei um táxi que me levou até o meu carro e assim que me sentei ao lado do motorista, o mesmo depois de cumprimentar com uma boa noite olhou para a minha cara de palhaço e todo risonho perguntou:
– “Amigo você está a cara do Arrelia, mas… e o Pimentinha, não veio”?
Voltei para casa convicto de uma coisa:
Aquele taxista nunca assistiu o Arrelia.
Ou então aquele maquiador jamais ouviu falar do Piolim.
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