Era o ano de 1924 e um boato corria solto: haveria um levante.
Apavorado, o povo da cidade começou a saquear vendas e pensões. A avó e as tias não acreditavam no que estavam vendo:
– Farelo? Um saco de farelo?
Cansado, arrebentado, suando muito, um tio veio arrastando aquele saco pela rua inteira. Entrara com a venda quase vazia, saqueada, quando o dono já se escafedia, carregando mulher e filhas, berrando pelas ruas do Cambuci: – "Ai, Jesus! Ai, Jesus! Este povo ensandeceu”.
Vieram dias e dias de intenso combate. Localizada em um morro, a Igreja do Cambuci fora transformada no principal foco de resistência dos revolucionários, porque permitia uma visão não só do centro como de toda a região norte da cidade.
Muitos moradores haviam abandonado a cidade e fugido para o interior, mas uma boa parte resistia e permanecia dentro das casas, escondida nos porões, enterrando mortos nos quintais e tentando ajudar os revolucionários enfiados nas trincheiras. As tropas legalistas estão conseguindo chegar! – gritaram os revolucionários, de casa em casa, pedindo aos que ainda permaneciam na cidade que a abandonassem antes do anoitecer…
Durante o levante, a cidade fora sendo ocupada e dividida pelas tropas legalistas e revolucionárias que travavam intensos e sangrentos combates e nos muros do Cambuci, marinheiros das tropas legalistas, chegados a São Paulo, vindo de Santos, já eram vistos espetados a baionetas.
Quando o tenente Cabanas mandou avisar, de casa em casa, que abandonassem a cidade antes do anoitecer daquele dia, o avô e o vizinho da casa do lado instruíram as crianças para vestirem duas mudas de roupas porque partiriam assim que começasse escurecer. Conferindo as crianças, no momento da partida, o vizinho percebeu a falta de uma das meninas – desaparecera como num piscar de olhos assim que uma granada explodira naquela rua. Os soldados, ajudando na retirada, deram batidas no mato ao redor das duas casas e nada.
Em vão chamavam e tentavam achar a menina. O tenente, então, convenceu-os de que ficar seria uma loucura. Prometeu continuar as buscas e ele próprio cuidaria da criança até que todos retornassem…
O avô colocou o menorzinho deles nos ombros, apertou a mão do tenente e partiu junto com os vizinhos.
Debalde tentaram achar a menina. Ajudando na busca, os soldados vasculharam o mato ao redor, gritaram e nada.
O tenente convenceu-os de que seria uma loucura tentar ficar e prometeu-lhes: – Continuaremos a busca e eu cuidarei da criança até que tudo tenha terminado.
O avô colocou o menorzinho nos ombros e partiu. Caminhavam junto do lixo acumulado nas ruas, pulando animais mortos, tentando não olhar para os cadáveres amontoados e empilhados, à espera de serem recolhidos pelo Rodovalho.
– Está louco? Velho maluco! – esbravejou um soldado quando os avistou caminhando e mandou que colocasse a criança no chão imediatamente – "maluco". Essa, se um dia contasse para alguém, "ninguém iria acreditar!", e o soldado irado acompanhou a retirada daquele pessoal, andando em fila indiana, e o maluco não está vendo que nos ombros a criança é um alvo?
Dirigiram-se à estação da Luz pegando um trem em direção a Campinas, onde ficariam abrigados. Os revolucionários fugiram da cidade na calada dessa última noite, com destino ao interior, em uma retirada silenciosa, deixando bonecos de palha nas trincheiras, em seus lugares.
A torre da Igreja do Cambuci também fora atingida. Acertaram e deceparam também a mão do anjo Gabriel…
O retorno
Derrotados os revolucionários e abortado o levante, as famílias foram retornando. A avó chorou sentida quando abriu as portas da nossa casa e viu uma granada, intacta em sua cadeira de balanço. Em vão, os vizinhos procuraram pela menina depois daquele levante, que nunca souberam por que e para que fora feito.
Tempos depois disseram que morrera, depois de ter sido atingida por aquela granada. Mas não acreditaram nessa história… Tentando achar pistas da menina, nosso Compadre Ramos, que era guarda-livros, colocou até anúncios na estação de rádio e colou cartazes nos postes e nos muros. Do tenente Cabanas, nunca mais ouviram falar. Debalde tentaram achá-lo em quartéis e guarnições da cidade.
Quando o compadre Ramos chamou o lambe-lambe, o vizinho se recusou e não quis nem ouvir falar na tal da indenização, porque o que perdera dinheiro nenhum poderia pagar.
O avô quis tirar o retrato da nossa casa porque queria que todos os que viessem depois dele soubessem que a nossa casa ficou bem no meio de um fogo cruzado, intenso, e as balas perdidas acertaram, furaram e marcaram a nossa casa e, pior, muito pior, nesse levante o vizinho, seu grande amigo, perdera a menina, "que era más linda do que un sol!".
Compadre Ramos ficou na calçada vendo o lambe-lambe tirar o retrato.
Examinando as marcas deixadas pelos tiros perdidos, aquele ali enquadrou a casa, escolheu o melhor ângulo, cobriu a cabeça com um pano preto e tirou o retrato para a posteridade.
Era domingo.
"Hoy es domingo,
se casa Peringo,
con una mujer,
cierra la puerta,
con un alfiler"
FIM
P.S.: A casa em questão ficava na Rua Luis Gama, e tenho as fotos dela crivada de balas, tanto da frente como do interior. Tenho fotos também do avô e da criançada.
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