Tempos de quaresma

Ano de 1953, eu com onze anos era coroinha da capela de N. S. da Conceição, na Praça Silvio Romero, no Tatuapé. Quarta-feira de Cinzas, início da quaresma, ajudava a cobrir as imagens dos santos com uma espécie de pano roxo, umas pequenas, outras enormes como a de Santo Antonio e São José, a imagem de São Luiz e São Benedito eram menores, então o padre Miguel deixava pra nós cobrirmos os santos menores.

Nunca fiquei sabendo por que cobriam as imagens dos santos quando chegava a quaresma. Às segundas, quartas e sextas-feiras, tinham a via sacra, que íamos de quadrinho em quadrinho representando o martírio de Jesus, rezando e cantando: "Pela via dolorosa, sua mãe tão piedosa…", e assim por diante.

Dona Angelina, minha mãe, sempre devota, toda sexta-feira fazia sardinha frita por causa da abstinência de carne naquele dia da semana. Todos os quarenta dias eram de um respeito total, música no rádio, só orquestrada. Quando vejo hoje o desfile das campeãs do Carnaval em pleno sábado de quaresma, fico imaginando o que diria minha mãe:

" – Mária Vérgine, che farta de respeto".

Chegava o Domingo de Ramos, início da Semana Santa, todos na missa para benzer as palmas, guinés e outros ramos, usava-se queimar nos dias de tempestades. À tarde, procissão do encontro. Da capela de N. S. da Conceição saía a imagem de N. S. das Dores, com seu manto roxo, e da igreja matriz de N. S. do Bom Parto saía a imagem de Jesus carregando a cruz. Num determinado ponto do trajeto, havia o encontro das duas procissões representando o encontro bíblico de Maria com Jesus carregando a cruz, e as duas procissões seguiam juntas até a matriz. Eu e outros coroinhas ficávamos na torre da igreja tocando o sino, e lá de cima víamos a procissão serpenteando as ruas com alguém na frente carregando um crucifixo também coberto com o pano roxo.

Sexta-feira da Paixão tinha a procissão do enterro, a imagem de Jesus dentro de um caixão, os fiéis portando suas velas com um protetor contra o vento para não apagá-las, e vez por outra surgia uma mulher toda de preto, o rosto coberto com um véu, subia num banquinho, a procissão parava para que ela cantasse e mostrava um pano com o rosto de Cristo ensanguentado, representando ali que ela havia enxugado o rosto de Jesus, era a Verônica.

Nesse dia, minha mãe dizia que, além de não comer carne, era dia de jejum, até o meio-dia não se comia nada, depois fazíamos um pequeno lanche de pão com aliche, à tarde íamos no cinema assistir a Paixão de Cristo.

No sábado, a molecava se divertia malhando o Judas, fazendo os bonecos, amarrava-os no poste, e ao meio-dia destruíamos o nosso e saíamos à procura de outros pra malhar.

Por fim, chegava o Domingo de Páscoa, às quatro da manhã, saía a procissão da Ressurreição, e era o dia inteiro de festa, com comidas, bebidas e ovos de chocolate.

Tinha também, como hoje, o lado comercial, como a venda de peixes, bacalhaus e ovos de chocolate, mas havia mais respeito, devoção e espírito cristão.

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