O "jogral" no curso primário, as "dissertações a vista de uma gravura", como a professora dava esse título, tinha que ser falar (escrever) baseando-se na gravura que ela determinava. Eu achava ótimo, era um desafio. E agora, pouco mais de cinquenta anos se passaram, e a "gravura" que está na minha mente é um filme de muito do que já foi vivido, são imagens que vem à tona.
Me lembro quando meu pai me levava para o trabalho dele, lá pelo final dos anos 60, na Pelmex (Películas Mexicanas do Brasil), uma distribuidora de filmes mexicanos e nacionais que ficava inicialmente na Avenida Ipiranga e depois mudou para a Rua do Triunfo, próximo da antiga Estação Rodoviária, aquela toda colorida que eu achava o máximo… O ronco do motor dos ônibus, as TVs por toda parte e o vai e vem dos passageiros.
O bairro, "a boca do lixo", nem de longe lembra o "lixo" de hoje… infinitamente mais cruel e perigoso. Me lembro das "prostitutas" que ficavam por ali, mas eram quase discretas, sempre se via alguma nos bares onde íamos às vezes almoçar um pf bem servido, que dava sempre pra dois, mas isso somente quando ele não levava a marmita. Era arroz com feijão (jalo), um de coroços grandes que eu admirava como podia ser quase o dobro do tamanho dos que eu normalmente comia na casa da minha mãe (o roxinho ou rosinha), um bife e batata… Era muito bom.
Passava o dia, quer dizer, normalmente era um sábado que ele trabalhava até o meio-dia, eu ficava brincando com a máquina de escrever e com a de somar. A de escrever era uma preta bem grande com as teclas arredondadas com botões de elevador antigos (elevadores… daria um capítulo à parte), tinha uma fita que imprimia uma cor roxa… Somente essa e uma outra tinham a fita metade preta e metade vermelha, mas era, digamos, mais "moderna", e eu ficava fascinado das letras saírem ora em preto ora em vermelho, ao meu bel prazer…
A máquina de somar então era um mistério, tinha cor azul bebê com botões brancos e arredondados e do lado direito tinha uma espécie de cruzeta, na qual que se decidia se era uma soma, subtração, multiplicação ou divisão bastando apenas deslocar o pino para uma dessas opções e, em seguida, puxar a alavanca que culminava o processo todo. Subiam umas barras de ferro, cada uma de uma altura, dependendo do dígito, e davam uma pancada na fita branca imprimindo os valores, e eu, diante da minha imaginação, conferindo se a máquina não errava mesmo.
As mesas antigas (mesmo para a época), madeira escura e gavetas grandes, e uma em especial bem larga, logo abaixo do tampo, acima do vão onde fica a cadeira, tinha uns compartimentos internos para tinteiro, borracha etc., e ele se deslocava para um outro lado mostrando um outro compartimento logo abaixo dele, e eu ficava vasculhando cada centímetro me interando de tudo.
Dava meia-volta e ia até a escada do prédio perto dos elevadores para olhar pelo vão da escada… Era no primeiro andar, mas dava para ver os outros dez acima, dava pra ver as pessoas passando pelos outros andares, era quase tudo de mármore branco, e era sempre muito gelado. Ao lado tinha uma portinha em cada andar, como se fosse a porta do fogão da minha mãe na época (Alpha), acho que era esse o nome do fogão… Eu pensava: o que fazia a porta do fogão na parede do prédio? Abri e logo em seguida passou pelo duto a mil por hora o lixo que alguém colocou lá pelo 10º andar…
E eu, do alto dos meus dez ou doze anos, imaginando como tudo aquilo era diferente do bairro e da vida pacata que se tinha num subúrbio da zona leste de São Paulo. A "cidade", a gente chamava assim quando se morava no bairro, dizia-se: vamos para a cidade? Você vai pra cidade amanhã? Etc…
O prédio tinha um cheiro característico, um ar gelado característico, a cidade tinha um barulho característico. Às vezes meu pai, ao voltar pra casa, passava comigo no Mercado Municipal e eu ficava imaginando o porquê de uma igreja vender alimentos, eu achava que o prédio era uma igreja por causa dos vitrais etc., e como tinha uma variedade tão grande. Eu sempre comia um pastel e um caldo de cana… Dá pra sentir o gosto até hoje só de falar…
Pois é… tem muito mais pra contar… Depois de uns anos passei a trabalhar no mesmo prédio que meu pai trabalhava, eu no quarto e ele no primeiro andar… Eu era office boy…
Aí já vai ser um outro capítulo, eu tinha uns quatorze pra quinze anos, e me lembro de muitas coisas da cidade (foi na época que o Andraus pegou fogo), eu tinha passado lá um dia antes e fiquei olhando as vitrines das Lojas Pirani… Eu continuo?
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